Muitas pessoas estão sempre me perguntando porque gosto tanto de futebol e, principalmente, do Vasco da Gama. Bom, a primeira parte da pergunta eu não sei responder. É a mesma coisa que perguntar porque uma pessoa gosta mais de verde que de azul. Eu simplesmente gosto de futebol, gosto de assistir aos jogos, gosto de ir ao estádio torcer e sei que isso foge do padrão considerando o fato de eu ser mulher. Nunca briguei com namorado nenhum por eles quererem ir aos jogos, gosto de ir junto. Hoje, com o Miguel pequeno, abro mão sem discussão e estimulo, inclusive, quando o Hugo é chamado por algum amigo pra ir a São Januário. Antes que pensem que só não crio confusão porque o namorado é vascaíno, saibam que já namorei flamenguistas e nunca fiquei chateada por eles irem aos jogos. De fato, namorar vascaíno é mais tranquilo pra mim porque posso acompanhar, ir junto, ficar do lado na mesma torcida.
Bom, a segunda parte da pergunta, a que fala sobre meu amor pelo Vasco, possui uma resposta que vem lá de trás, vem da minha infância. Acho que meu amor pelo Vasco nasceu em um apartamento do terceiro andar de um prédio sem elevador, em Olaria. Nasceu quando eu ainda era uma menininha e não entendia muito bem o que estava acontecendo, mas via meu pai na sala de jantar, próximo a janela, com seu radinho de pilha colado ao ouvido, quieto, daquele jeito do seu Mariano... Um jeito que não grita, um jeito contido, um jeito de comentários pertinentes na hora certa, sagaz, sarcástico, até engraçado. Meu amor pelo Vasco vem do fato de ter estampado na minha memória o sorriso aberto do meu pai a cada gol, a cada vitória. Meu amor pelo Vasco vem de uma época em que Vasco e Flamengo era uma briga boa entre Dinamite e Zico. E dava gosto ver aqueles times jogando. E meu pai torcendo.
Nunca senti nenhum tipo de pressão do meu pai para que eu e minha irmã fossemos vascaínas. Aconteceu, assim, naturalmente. Nunca fomos encorajadas a torcer pela cruz de malta, nunca fomos encorajadas a gostar de futebol, acho que pelo fato de sermos meninas mesmo. Tivemos pressão, sim, para virarmos flamenguistas, porque meu padrinho é rubro-negro. E, me perdoem os que torcem por esse time, mas, salvo algumas exceções, flamenguista é chato pra caramba...rs... Mas, tadinho do meu padrinho, ele nunca teve sucesso. Nunca nem chegou perto de conseguir seu intento. Torcer para outro time, na minha cabecinha infantil, hoje entendo, era trair meu pai.
Por isso, hoje, quando estou torcendo pelo Vasco, quando vibro com um gol, com uma vitória, é como se tivesse meu pai perto de mim de novo. Quando visto a camisa do time da colina é como se pudesse sentir o cheirinho dele, bem perto de mim. É ver meu pai sorrindo, feliz, pronto pra ir pro botequim pra sacanear seus amigos flamenguistas e comemorar com os amigos vascaínos. Torcer pelo Vasco, estando o time bem ou mal, na primeira divisão - lugar de onde nunca deveria ter saído - ou na segunda, é estar com meu pai faça chuva ou sol, na saúde e na doença. Meu amor pelo Vasco se confunde com o amor que sinto por meu pai. E isso diz tudo.

