quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Quem meu filho beija, minha boca adoça



A vida está corrida e o trabalho não dá trégua nessa época, mas não posso deixar de registrar algo de muito bom que aconteceu esse ano.

Quando Miguel começou seu Jardim III confesso que fiquei apreensiva ao saber que a professora que iniciaria o trabalho com a turma seria substituída em junho pela professora que voltaria de licença maternidade. Achei que meu filho já estaria acostumado com uma e que teria que se adaptar novamente ao jeito da professora que retornava. Enfim, preocupações bobas de mãe porque a gente sabe que os filhos se adaptam rapidamente às mudanças da vida e isso não seria um problema. Na verdade, o que eu achei que seria algo "chato" tornou-se um presente de Deus. 

Todos sabemos que existem afinidades entre as pessoas e que, muitas vezes sem sabermos explicar, nos identificamos ou não imediatamente com alguém. E acredito que isso tenha acontecido com meu filho. Ele não se conectou com a professora que ficou com a turma até junho, não criou vínculos, simplesmente não aconteceu. E isso, é claro, refletiu em sua vontade de estar na escola. Eu, como professora, sei o quanto é importante buscarmos caminhos para chegar em cada aluno, para conseguirmos uma ligação qualquer, um atalho que seja, pra alcançarmos um modo de ensinar. Com 20 alunos em uma sala, a única coisa que é certa e que todo professor deveria saber, é que serão 20 alunos totalmente diferentes um do outro e que o modo de aproximação usado com um, não necessariamente, dará certo com outro. É preciso, por mais experiência que se tenha e por mais anos dentro de sala de aula que se carregue no currículo, saber se reinventar e acompanhar mudanças. Enfim, algo não estava dando certo com o Miguel no primeiro semestre do ano.

Enfim, junho chegou e com ele chegou a Carla. Até acredito que meu filho tenha gostado dela de cara, mas acredito mais firmemente que a Carla soube construir um relacionamento de confiança total com ele. Pouco a pouco, Miguel aceitou a mão que ela vinha estendendo a ele. E não soltou mais. Carla soube ler meu filho, soube entendê-lo e, portanto, soube tirar do Miguel o melhor. Miguel parou de reclamar que tinha que ir pra escola - coisa que nunca tinha acontecido nos 2 anos anteriores e que vinha acontecendo com frequência nesse ano, e seu desempenho deu um salto. Os desenhos, antes mal feitos e rabiscados, viraram formas facilmente identificáveis, cheias de cor e capricho. Miguel retomou a confiança que estava abalada. E, apesar de se cobrar muito e de não querer errar, respondeu aos estímulos com fé em si mesmo. Carla foi a responsável direta pela recuperação da auto-estima do meu filho, justo ele que sempre foi um menino tão seguro e firme, precisou de um resgate. E, graças a Deus, o resgate foi feito por esse anjo em forma de professora doce e carinhosa. O resgate veio através da Carla. 

Hoje, fim do ano letivo, só posso e devo agradecer. Primeiro à Deus por sempre me mostrar que por mais que as coisas pareçam esquisitas a princípio, tudo acontece por uma razão e, nesse caso, Deus sabia que a troca de professor seria uma benção pra mim e pro meu filho. Segundo, devo agradecer à Carla, por ter exercido sua função tão lindamente, tão cheia de entrega. Por não ter tido preguiça de tentar um caminho novo com o Miguel, por não ter achado, simplesmente, que meu filho não se interessava e ponto. Quando seria mais fácil achar que ele não "estava nem aí pra escola", ela resolveu percorrer uma estrada nova de mãos dadas com o Miguel. Quando seria mais simples assumir que meu filho não era caprichoso, ela optou por tentar conhecê-lo e buscar alternativas. Quando seria mais fácil dizer que ele não estava se desenvolvendo como os demais alunos, ela arregaçou as mangas e trabalhou. 

Por tudo isso é que posso afirmar que essa professora, talvez não tão experiente nessa longa estrada do magistério, terá um futuro brilhante. Ela sabe que cada aluno é um aluno. E porque ela é incansável na tarefa de ajudar a cada um deles, com todas as suas nuances e diferenças, em todas as suas sutilezas e esquisitices. Posso dizer que a Carla enxergou o meu filho. E, a partir de então, fez com que ele a olhasse nos olhos e confiasse nela. Benção pura. Que maravilha saber que existem muitas professoras como você! Faz muito bem ao coração saber que existem muitas "Carlas" espalhadas por aí. 

À você Carla, meu mais sincero agradecimento. Saiba que estará pra sempre no meu coração. 



quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Imagina quando tiver 16...






Sempre tive como objetivo criar meu filho pro mundo. Sempre quis que se virasse bem sem mim e que fosse feliz independente da minha presença. Nunca imaginei ter um filho agarrado comigo, que fosse minha sombra, sabe? Eu mesma sempre fui muito independente, adorava e adoro rua, festa, comemoração. Miguel é muito parecido comigo, apenas é muito mais carinhoso que eu. Definitivamente, uma edição de riso aberto como o meu melhorada.

Há 2 semanas ele foi pra Salvador com a avó, tia e primos. E, algumas vezes, supreendo-me observando como ele é desprendido e safo. Miguel viajou em uma sexta feira de manhã bem cedo e eu vinha falando com ele diariamente mas no domingo eu disse a ele que estava morrendo de saudade. Sabe o que ele me respondeu?

- Mãe, você sabe que depois desse dia (não sei porque ele não fala "amanhã") já é dia de eu voltar né?

Nossa. Tão sutil esse meu filho. Disse, em outras palavras, que eu não precisava ficar com tanta saudade uma vez que logo estaria de volta. Então, tá. Na segunda-feira, finalmente de volta, estava agarradinha com ele e cobrindo meu filho de beijos quando mais uma vez disse a ele:

- Poxa, filho, eu estava com TAAAANTA saudade de você!! 
E Miguel respondeu:
- Tá bom, tá bom, mãe. Mas, olha, eu já estou aqui! Pertinho de você!

Tradução: pára de frescura que você não precisa mais falar desse assunto de saudade porque estou aqui abraçado a você, ok?

Ok. Falar o quê?

O final de semana seguinte à sua viagem à Bahia, foi o final de semana passado. Já estava pensando em um cineminha com ele e tínhamos uma festinha no domingo e ele sabia dos nossos planos. Só que Hugo foi com ele na casa da tia pra consertar alguma coisa por lá e voltou sozinho. Miguel não quis voltar pra casa. Ficou com os primos, brincando com os gatos. (Miguel ama bichos e eu não os tenho. Nem terei.) À noite, voltou pra casa e eu pensando que ele fosse ficar, enganei-me redondamente. Na verdade, o maroto veio apenas pedir pra dormir na casa da tia pra no domingo ir à praia com eles. Gabriela disse que estava tudo certo, dando o aval pra que ele passasse o resto do fim de semana com ela. E, assim, meu filho correu pro quarto pra gente preparar sua bolsa e ... tchau. 

Dois finais de semana seguidos sem filho. Não me entendam mal, não estou reclamando não. Foi até muito legal! Mas... Isso não era pra estar acontecendo um pouquinho mais tarde? Coloquei no mundo um cara do mundo mesmo! Imagina esse moleque com 16 anos? Vou ter que acorrentar ao pé da mesa. 

Ontem foi a festa de formatura da Rafa. Crianças com 11 anos na festa. Quase nenhuma criança da idade dele. Você pensa que ele ficou perto de mim, sentadinho, quietinho por não estar ambientado? Ha ha ha. Miguel só vinha à mesa pra comer, porque disso meu filho nunca esquece. É bom de boca o danadinho. Miguel brincava no meio das crianças de 11 anos, com a maior desenvoltura. Lá pela meia noite eu já estava caindo pelas tabelas e falei pra ele que precisava ir pra casa. Aí ele me perguntou:

- Minha Dida vai ficar? 

Respondi que sim, que ela ainda ficaria mais um pouco. Pronto, seu "problema" estava resolvido:

- Então vai pra casa descansar, mãe. Mas me deixa aqui com ela, pode ir embora com meu pai. Eu estou numa festa! Quero aproveitar! Vai lá... Não fica andando atrás de mim, não, tá, gostosinha? Pode ir pra casa sossegada!

Como é? Ele me disse pra "não ficar andando atrás dele?" Foi isso mesmo? Sei lá. Nem sei.

O que eu sei é que só recebo elogios a respeito do comportamento do meu filho quando não está comigo. Todos dizem que é educado e que obedece. A tia diz que ele não dá trabalho algum e que é uma criança que topa tudo e não tem frescura. Fico orgulhosa e feliz por ver que meu filho é bem feliz longe de mim. Bom ver que ele aproveita a vida e os momentos que ela vem lhe proporcionando. 

Confesso que talvez não estivesse preparada pra um filho tão independente quanto ele. Mas acho que é melhor assim. Deus me presenteou com o filho perfeito pra mim. Pra que reclamar? Deixa eu pensar nos 16 anos quando eles chegarem, né? 





terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Medo de ser Mãe






Eu morria de medo de ser mãe. E acho que uma das razões do meu medo era o fato de eu ter uma vida tão boa. Também por ter levado essa vida tão boa por tanto tempo. Aí, qualquer coisa que ameaçasse a tranquilidade que eu tinha me causava pavor. 

Eu não era uma menina que gostava de brincar de bonecas, nem de casinha. Minha irmã, sim, adorava ter várias bonecas, vários bebês. Eu achava chato ter bonecas e nem ligava pras que eu tinha. Meus pedidos de brinquedo eram sempre algo com que eu pudesse produzir alguma coisa: eu tive máquina de costura, forno elétrico onde adorava fazer bolos, espremedor de laranja, uma polaroid, uma máquina de escrever, enfim... Dificilmente eu pedia uma boneca de presente e não me lembro de ter pedido um conjunto de panelinhas daqueles que quase toda menina gostava de ter. Por isso, ser mãe era uma ideia meio distante e algo até sobre o qual eu não tinha pensado muito.

Como demorei a encontrar um cara que me desse segurança pra me arriscar nessa aventura, deixei o assunto arquivado. Só que quando conheci o Namorado e tudo fluia tão bem, tão sem drama e eu me sentia ao lado de alguém que, além de namorado, era meu amigo, meu parceiro de todas as horas e pra qualquer loucura e alguém que estaria ao lado na dificuldade de educar uma criança, a ideía começou a me rondar. E o medo também. E alguns podem pensar: "meu Deus, de que tanto essa mulher tinha medo?" 

Eram vários medos. Vários. A terapia de ajudou muito nisso. Mas vencer os medos era um processo só meu e não foi fácil. O primeiro e maior medo era o de perder minha liberdade, de perder meu direito de ir e vir quando tivesse vontade, o medo de não poder fazer planos que dependessem só de mim, de ter que contar com uma variável que fica doente, tem seu próprio querer, que depende de você, medo de me sentir presa. O segundo medo era de que, por causa de todos os medos citados acima, eu sofresse. E de que eu não conseguisse mais ser feliz por ter optado por ser mãe sem ter vocação pra tanto. A última coisa que eu queria no mundo era colocar a culpa por minha infelicidade e insatisfação em um filho, colocar a culpa em quem não tinha a menor culpa por uma escolha que era só minha. E, talvez, o maior e mais amedrontador: medo de não ser uma boa mãe. Medo de não conseguir dar ao meu filho o que ele precisa, de não ser capaz, de ser incompetente nessa coisa tão grandiosa que é a maternidade. Medo de abraçar o projeto que seria o maior e mais importante da minha existência sem ter os requisitos pra ter sucesso na empreitada. 

Engraçado é quando eu penso que a razão que me fez decidir querer ser mãe foi também um medo: o medo de o tempo passar e eu deixar tão pra depois que não fosse mais possível, caso eu mudasse de ideia tarde demais. Foi o medo de me arrepender da opção de não ser mãe que me fez vencer todos os outros medos. Na época, várias pessoas acompanharam minha dúvida. Uns cobravam uma decisão de minha parte de forma mais enfática. Outros confiavam tanto na sua própria experiência de maternidade que achavam que seria ótimo que eu vivesse o mesmo. E ainda havia os que também viviam seus próprios dilemas com relação ao assunto e se mostravam reticentes. Hoje, vejo que a maior parte acreditava em mim mais que eu mesma. Eles viam algo em mim que eu não conseguia entender ou enxergar.

A verdade é que com o Miguel nasceu uma Paula que eu não tinha a mais vaga noção que existia. A Paula mãe. Uma mulher que não abre mão do que quer e do que a faz feliz, mas que consegue colocar outra pessoa na frente de seu querer. Uma Paula capaz de tudo pra ver o filho bem, que viu um amor louco crescer no peito dia após dia, noite após noite. Ninguém me preparou pra algo tão difícil. Ninguém me disse que eu chegaria ao meu limite de cansaço, de desespero, muitas vezes de culpa. E que morreria de tanto amor por uma coisinha gorducha que mudou minha vida, que deixou meus dias de cabeça pra baixo, que bagunçou meus planos. Que me mostrou que tudo que eu temia, de fato, acontece, mas que você arranja um jeito de contornar, que você encontra um caminho, uma alternativa. Juntos. 

Agora eu vejo o porquê de todas as pessoas falarem tão pouco sobre as dificuldades da maternidade. Entendo, de todo coração. É porque, no fim das contas, assim como o meu medo de não poder ser mãe venceu todos os outros muitos medos que eu tinha, o lado bom de ser mãe sempre vence e sempre vencerá os muitos momentos difíceis da maternidade. O que fica, quando colocamos na balança, é a lembrança de um sorriso desdentado. É a mão gordinha apertando seu peito enquanto mama olhando pra você. É um par de pernas roliças aprendendo a andar, são as palavrinhas iniciais que  arrancam suas melhores gargalhadas quando estão aprendendo a falar, é o andar de mãos dadas indo pra escola, é o abraço gostoso e apertado que você ganha quando chega do trabalho, é o beijo de boa noite. O que fica é muito maior e melhor que todas as coisas ruins e difíceis. E é por isso que outras mães não falam tanto de seus medos e dores. Hoje eu entendo. E posso dizer que venci o medo de ser mãe. E digo também que não trocaria essa experiência e o amor do meu Miguel por nada, absolutamente nada, nesse mundo.









segunda-feira, 24 de novembro de 2014

A mulher do sinal

Ando pensando muito ultimamente no porquê de certas pessoas terem sempre um pensamento negativo com relação à quase tudo, estarem sempre com um olhar endurecido pra enxergar situações e pessoas e estarem sempre com uma certa aspereza no falar ou na escolha de suas palavras. Eu não sou dessas que gostam de florear a vida, eu procuro mesmo enxergar as coisas como elas são. Já disse aqui que um copo pela metade é pra mim um copo pela metade. Não é um copo vazio, mas também não é um copo cheio. Meu esforço vai sempre pra como fazer o copo que está pela metade encher. Aí mora meu otimismo: em acreditar que minhas ações e estratégias pra encher o copo darão super certo. 

Por ser assim é que me incomodam pessoas que não sabem rir de situações, tudo sempre é tão levado à sério, tão sem brincadeira e cor. Pra citar um exemplo, sábado foi jogo do VASCO no maracanã. Jogo que se o Vasco empatasse já garantiria sua volta pra série A. O time jogou super mal e não passou do empate mesmo. Mas, pra mim, o objetivo foi alcançado e eu me sentia com vontade de festejar. Só que a maioria das pessoas só falava que o time jogou mal, que era uma vergonha não ter ganho o jogo com o Maraca lotado e que festejar a volta pra série A também era vexatório. Bom, pra mim, esse argumento é a mesma coisa que não comemorar com um filho que repetiu de ano na escola o fato de, agora, enfim, ele ter passado. Esse foi um exemplo bobo, estou aqui falando do meu time de futebol mas poderia estar falando de qualquer outra coisa. Fato é que a nuvem negra que mora sobre a cabeça de alguns seres é tão intensa que não permite ver o bom em nada. Acho que críticas construtivas tem lugar e momento pra serem feitas, até porque acredito que uma crítica fora de hora não leva ninguém a lugar algum. 

Continuei pensando nessas posturas mais duras que algumas pessoas adotam em relação à vida, sempre tendo uma crítica, sempre fazendo questão de pontuar o negativo de uma situação. E, nesse caso, esse comportamento é escolha. Você pode escolher valorizar o bom, valorizar a vitória, a conquista. Independente do que haja de errado em qualquer situação, sempre há alguma coisa bacana. Acho importante ter a consciência de que o que não deu certo, o que está fraco ou ruim, merece atenção, não podemos ignorar. São essas coisas que nos farão crescer ou buscar o acerto. Mas também não podemos escolher olhar só o erro, só o fracasso. 

Então, quando estava indo pra casa do meu primo no sábado passado, parei em um sinal de trânsito. Estava um calor danado e havia vários carros parados nesse sinal. Uma senhora estava distribuindo panfletos publicitários e ela andava com certa dificuldade debaixo daquele sol quente porque estava bem acima do peso. Além disso, visivelmente tinha problemas no joelho o que tornava sua locomoção mais dolorida. Ela passou pelos três carros na minha frente e nenhum deles abriu o vidro para receber o panfleto. E eu falei pra minha mãe, Namorado e Miguel que estavam no carro comigo, enquanto ela vinha em minha direção:

- Vou abrir o vidro pra ela, vou ajudá-la em seu trabalho. Afinal, não deve ser fácil trabalhar com um sol desses na cabeça.

Assim, abri o vidro e a recebi com um sorriso. Ela me entregou o panfleto e me disse devolvendo-me um sorriso maior ainda:

- Muito obrigada! Que você tenha uma tarde maravilhosa e que sua família seja abençoada. Um feliz Natal pra vocês e que Jesus os acompanhe.

Agradeci por suas palavras tão cheias de amor, desejei o mesmo a ela e fiquei pensando naquela atitude enquanto observava sua caminhada na direção dos outros carros através do retrovisor do meu carro. Três carros atrás de mim, alguém também abriu a janela pra ela e eu vi que ela também desejou as mesmas coisas pra pessoa que abriu a janela pra receber aquele panfleto. 

Cheguei a conclusão de que simplesmente é a atitude que adotamos perante a vida que nos define, que define o que somos, o que queremos ser, o que queremos pro nosso semelhante. Aquela mulher, por estar trabalhando debaixo de sol quente e com dificuldade pra andar, poderia entregar 5 panfletos iguais pra cada carro que abrisse a janela pra ela, como ja vi acontecer um sem número de vezes. Ela poderia ter entregue o panfleto e não ter dito nada. Poderia ter seguido adiante sem nem olhar pra mim. Poderia caminhar com uma nuvem carregada sobre sua cabeça. Mas não. Ela não quis ter aquele olhar de quem lamenta. Ela não quis ter uma nuvem negra sobre si. Aquela mulher do sinal, cujo nome não sei mas de quem nunca me esquecerei, escolheu olhar nos meus olhos, escolheu sorrir e, mais que isso, escolheu tirar um tempo pra me desejar coisas boas de todo o seu coração. A mulher do sinal escolheu olhar pro que há de bom, escolheu valorizar o que há de positivo em cada situação, escolheu amar a vida que tem. E isso, meus amigos, é o que mais importa.  

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Esqueceram o Miguel



Minha família é uma bagunça muito gostosa. Parecemos um bando quando estamos juntos. Todo mundo fala ao mesmo tempo, todo mundo ri às gargalhadas, o volume é tão alto que parece que os vizinhos vão chamar a polícia a qualquer momento quando a macacada está toda reunida. Então, dá pra concluir que não somos muito normais mesmo, mas também não chegamos a ser loucos. Pode acreditar, nós não rasgamos dinheiro. Só que eu acho que na escola do meu filho eles devem achar que a gente deveria estar no hospício. Como se não bastasse a mãe da criança mandar merenda com data de validade vencida há mais de 1 mês pro filho lanchar, ontem a situação conseguiu ficar pior ainda.

Miguel sai da escola às 17:20. Às segundas-feiras, Itallo - o "Dido" querido do meu filho - vai buscá-lo. Terças e quartas são os meus dias. Quintas e sextas são os dias do Hugo. Em algumas ocasiões, de acordo com os compromissos de trabalho, fazemos um troca-troca, mas, em geral, é assim que a banda toca. Pois é. Ontem foi segunda. Dia do padrinho. Paula estava relaxada, sem correria em seu trabalho porque não precisava sair cedo, quando às 18h meu celular tocou.

Era a Simone ligando da escola. Assim que ela se identificou, olhei pro relógio e pensei que naquela hora Miguel estaria cansado de já estar em casa e que ela deveria estar me telefonando pra contar alguma coisa que tivesse ocorrido na escola. Sei lá, alguma besteira que Miguel tivesse feito ou pra falar que esqueceu a merendeira ou que rasgou o uniforme. Enfim, pensei várias coisas, menos o que ela me diria depois:

- Paula, é que Miguel está aqui na escola.

Oi??? Como assim? Olhei pro relógio meio abobadamente, eram 18h e ninguém tinha ido buscar meu filho?? Minha mente estava processando a informação em câmera lenta e eu tentava raciocinar se tinha confundido o dia da semana, se o Itallo tinha me dito que não poderia ir buscar o afilhado e eu, sabe-se lá porque razão, havia deletado a informação da memória. Estava tentando ainda me situar no espaço e tempo quando ouvi a voz do meu filho ao fundo conversando calmamente com alguém. E aí entendi que, sim, Miguel ainda estava na escola. Então consegui perguntar tentando parecer um pouco menos idiota:

- O Miguel está aí? Ainda?

Talvez a Simone tenha tido vontade de dizer: "Dããããããããããã!!!! Claro, né, Paula. Se estou ligando pra você..." Mas não foi isso o que ela fez, óbvio. Muito educadamente, respondeu:

- Sim, Paula. Ninguém veio buscá-lo.

Bom, consegui dizer que estava indo pra lá e peguei a chave do carro que estava em cima da minha mesa. Antes de sair correndo feito doida em direção ao meu carro, peguei também o celular e liguei pro Itallo. Ele atendeu e eu falei:

- Itallo, você me avisou que não iria buscar o Miguel hoje?

Itallo respondeu:

- Não, Paula... Desculpe... Eu esqueci completamente! Já estou aqui na esquina da escola. Perdi a noção do tempo e não lembrei mesmo... Mas já estou chegando!! Não precisa sair do trabalho!

Do jeito que o Itallo estava desarvorado, deu até pra sentir pena dele. Coitado. Tem coisas que é melhor que aconteça com o filho da gente que com o filho dos outros. 

Eu fiquei ansiosa pra falar com o Miguel, pra saber  como ele estava, se tinha se sentido mal por ter ficado esquecido na escola, se tinha chorado. Afinal, eu vejo essa situação acontecer com certa frequência aqui no trabalho. Os pais, às vezes, esquecem da hora de buscar os filhos mesmo. Só que a maior parte das crianças fica bem angustiada, sem saber o que aconteceu. Muitas choram, se desesperam, ficam inconsoláveis. Não foi o caso do Miguel. Pra minha surpresa, Miguel estava ótimo. Conforme eu ouvi pelo telefone, ficou na escola muito tranquilo, conversando. Ficou um pouco preocupado quando ele viu que não havia mais nenhuma criança pra ser apanhada pelos pais, só restava ele. E Simone disse que a única insatisfação que demonstrou foi dizer que não queria dormir na escola. Ai, meu Deus. ´Tadinho do meu filho. Deve ter pensado: "Eu não me importo de ficar aqui, ok. Eles podem até demorar mais umas 3 horas pra vir me buscar, mas, por favor, dormir aqui já é demais!"

Itallo falou que pediu desculpas ao Miguel, mas que foi recebido por ele com o mesmo sorriso de sempre, a mesma alegria.

A escola deve achar que Miguel nasceu na família errada. Ou achar, no mínimo, que somos todos surtados. A mãe manda merenda vencida pro filho. O padrinho esquece do menino na escola. E ele nem desesperado ficou. Miguel é mesmo um garoto bacana. E a verdade é que no meio dessa loucura toda, meu filho tem certeza de que é MUITO amado. E, no final das contas, é isso que vale.



terça-feira, 11 de novembro de 2014

Mãe Leoa



Já falei várias vezes, sem me orgulhar disso, que sou uma mãe que grita. E sei que gritar talvez seja o mesmo que bater, mas que atire a primeira pedra quem nunca perdeu a cabeça. Muitas vezes condenei quem bate em filho e hoje vejo que filho tira mesmo os pais do sério e minha vontade é dar uma palmada, sim, quando o Miguel está passando dos limites. Felizmente, como sempre fui péssima de briga desde a época da escola e como bater nos outros nunca foi meu forte, Miguel nunca levou uma porrada mas achei um caminho pra estabelecer limites com ele. 

Quando estou normal (entenda: dentro do que pode se chamar de sanidade), falo baixo e engrosso o tom de voz e já basta. Agora quando estou anormal (entenda: nível de estresse elevado ao máximo e criança tirando o restinho de paz que ainda lhe resta), algo se apodera da minha pessoa e grito ferozmente. Daí, outro dia, depois de passada uma crise animalesca da minha parte e de estar tudo em perfeita calma novamente, ouço meu filho falando pra prima:

- Sabe, Rafa, minha mãe é que nem um leão! Quando ela está "nervosinha" (estaria ouvindo direito Miguel usar um certo ar de deboche ao falar a palavra "nervosinha"??), ela começa a gritar que nem um leão!

Rafa desatou a rir quando Miguel começou imitar meus urros e volume quando estou "raivosa".

Gente, tem como manter a raiva com um garoto gaiato desses na minha vida? Ele sempre arranca de mim um sorriso, sempre me faz esquecer rápido as besteiras que faz, sempre me pede desculpas quando vê que fechei a cara e vem logo pra perto de mim cheio de "eu te amo, mamãe", "você é minha lindinha", "não fica com essa carinha de brava não..." e "minha gostosinha da minha vida!". 

Ah... Se sou mãe ou sou leão, não sei. A única coisa que tenho certeza nessa vida é que Miguel foi a mais bela benção que já recebi. Miguel é a maior responsabilidade a mim confiada por Deus e eu amo ser a mãe do Miguel. Meu filhote de leoa.  Meu leãozinho.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Natal de Novo



Amo Natal e sempre tive mil motivos pra isso. Minha família sempre reunida, muita alegria, bagunça, barulho. Desde que me entendo por gente tenho lembranças lindas de vários natais em família, todos muito animados e felizes. Aquela trabalheira toda pra arrumar a casa, fazer aquele monte de comidas gostosas e decorar tudo, comprar e ganhar presentes. Sempre um cheiro de felicidade no ar. Morávamos em um apartamento em Olaria e em muitas ocasiões a família dormia toda alí, um em cima do outro, sem conforto, espalhados pelo chão, mas ninguém ligava. Queríamos era ficar juntos e prolongar ao máximo aquela sensação de união.

Engraçado que depois que a gente se mudou pra Ilha, passamos um tempo sem ter mais Natais tão divertidos como aqueles passados em Olaria. Fomos morar em uma casa que é, pelo menos, 10 vezes maior que o apartamento e não ficávamos mais tão juntos quanto antes. Sempre tivemos Natal, nunca deixamos de celebrar essa data tão especial pra nós, mas o fato é que o Natal só voltou a ser parecido com o que era antes de nos mudarmos quando conheci o Hugo. A família dele e a minha se entenderam perfeitamente até porque eles também são barulhentos e bagunceiros e desde 2004 todos os Natais voltaram a ter um gosto doce porque ficamos reunidos. 

Miguel já demonstra que também adora essa farra natalina, adora o amigo-oculto, as brincadeiras, as risadas. Adora os enfeites e as luzes e, é claro, adora o Papai Noel. Ano passado nossa casa estava em obras e Miguel estava preocupadíssimo porque não colocamos nenhum enfeitinho de Natal. Ele reclamou que não montamos uma árvore e me perguntou como o Papai Noel iria entrar na casa dele pra deixar seu presente se nossa casa não estava arrumada pra esperá-lo. Expliquei pra ele que eu já tinha escrito pro velhinho contando que nossa casa estava em obras e que eu havia pedido pra ele não esquecer de nos visitar porque no próximo ano a casa estaria linda e enfeitada para recebê-lo. Interessante o Miguel ter feito essa colocação a respeito de preparar a casa pro Papai Noel porque, de certa forma, ao preparar nossa casa para o Natal estamos nos preparando também pra esse amor todo que invade o mês de dezembro, mês do aniversário de um dos homens mais admiráveis da história da humanidade. É como ter, a cada dezembro, a oportunidade de receber essa energia toda pra fazer com que ela perdure por todo o ano que se aproxima. 

Bem, então por todos esses questionamentos do Miguel,  esse ano tive que cumprir a promessa feita. Casa linda, do jeito que a gente queria, faltava apenas uma árvore de Natal novinha, grande e bonita. Essa semana, comprei a árvore e enfeites e Miguel não se continha de tanta alegria e queria montar a árvore assim que ela chegou. Ontem, vencida pelo cansaço, começamos a montar nossa árvore de 2,10m e Miguel estava empolgadíssimo, ajudou muito, escolhia o lugar dos enfeites. Minha mãe, Hugo, eu e Miguel às voltas com a árvore de Natal. Durante três horas ficamos alí reunidos e me deu uma vontade enorme de chamar minha irmã, minhas afilhadas e meu cunhado pra virem também. Todos envolvidos na mesma tarefa, rindo e falando besteira. O espírito da paz presente, quase palpável. Do jeito que deve ser. Do jeito que deveria ser em todo lar. 

A árvore ficou linda e mais lindo ainda era a felicidade do meu filho. Quem tem criança em casa sabe que o Natal é ainda mais precioso por isso. Os valores do Natal, o amor de Cristo e por Cristo, a união familiar, a fé na vida, enfim, são as coisas mais importantes e que devem ser passadas de geração pra geração. A ansiedade do Miguel pra acender a árvore e ver suas luzes piscando foi emocionante. Promessa cumprida, árvore de Natal pronta, casa na expectativa do Papai Noel, Natal chegando e o amor se renovando. Olhando pro meu filho tão feliz arrumando pela primeira vez a sua árvore de Natal, voltei a ser criança e lembrei de mim, cheia de felicidade e com a mesma ansiedade pra arrumar a árvore de Natal do apartamento pequeno de Olaria. As luzes da árvore de Natal acesas e meu coração piscando amor. 

Feliz Natal pra todos!!