quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Projeto Camiseta

Olha, não sei dizer quando foi que parei de ir pra academia usando só top e calça ou só macacão. Faz tanto tempo que não lembro mesmo. Se eu fosse chutar, diria que deve ter uns 4 anos. Não importa a roupa que esteja usando pra malhar, uma camiseta por cima sempre me acompanha de casa até a academia e eu não tiro quando chego lá. 

Então, durante uma das aulas, quando a professora falou que gostaria que a gente viesse malhar com roupas mais justas e, de preferência, com a barriga de fora para que ela pudesse ver se estávamos contraindo o que tinha que contrair e também pra que nós não relaxássemos os músculos abdominais durante todo e qualquer exercício, achei que fazia sentido o pedido. Mas pensei também que seria um pedido impossível, ou quase, de eu atender. 

E aí fico me perguntando o porquê disso. E a única resposta que me vem a cabeça é que não me sinto confortável sem a camiseta, me sinto exposta. Aí me lembro que nem sempre foi assim. Já malhei muito com a barriga de fora, de shortinho curto até, já usei macacões super decotados e chegava na academia muito "cheia de mim". O que aconteceu comigo? 

Bom, primeiro acho que minha vida mudou muito nesses últimos 5 anos. Eu engravidei, tornei-me mãe, minha perspectiva de mundo mudou, meu olhar pra esse mundo mudou e mudou também o meu olhar para comigo mesma. Não vejo nada demais em colocar minha barriga de fora, afinal de contas, uso biquini. Mas não estou mais a fim de ficar me olhando no espelho e nao me sentir bem, ter que ficar puxando a roupa aqui e ali, enfim. Quero malhar me sentindo bem e lá está minha camiseta de segurança pra isso. Não quero ter que olhar no espelho o tempo todo o que não me agrada. E academia é cheio de espelho né, gente? Acho que só perde pra motel. Não tem como fugir da sua imagem. E chega um ponto da vida da gente que você sabe que tem coisas que não vão mudar, então melhor passar por cima delas e não ficar olhando o tempo todo né? Tenho colegas de malhação mais velhas que eu e que malham usando macacão sem camiseta por cima e fica muito bem nelas e, o mais importante: vejo que elas estão se sentindo bem. Estão usando a roupa apropriada pra ocasião. A questão não é essa. Talvez seja uma questão de estar bem com o próprio corpo em todos os aspectos.

Esse lance da camiseta me mostrou que, apesar de eu me aceitar muito bem, com todos os meus defeitos, eu ainda tenho um padrão de beleza na minha cabeça ao qual eu não pertenço. Talvez eu ainda ache que poderia ter menos barriga, menos celulite ou mais bunda, mais peito. Sei lá. Mas também pode ser apenas que eu não queira mesmo colocar minha barriga de fora na academia e pronto. Eu não tenho que usar maiô só porque tenho 43 anos. Eu não tenho que deixar de usar short porque acham que já passei da idade pra isso. E não tenho que tirar a camiseta se isso não me fará feliz. Tenho que fazer o que me faz feliz. Exatamente como a adolescente gordinha que resolveu participar de um concurso de beleza:


Ela tinha um sonho de desfilar, foi lá e mandou os padrões de beleza pra cucuia e foi ser feliz. Ganhou? Não. Mas isso não importa. Ela realizou o sonho dela. E estava confortável dentro da sua pele. Eu quero estar confortável dentro da minha. Talvez eu chegue a tirar a camiseta na academia em breve. Talvez não. Talvez ainda use minha camiseta como escudo protetor. Quem vai saber? A escolha tem que ser minha. Penso que a única coisa que não pode faltar na minha estrada são as bifurcações, porque a pior coisa que pode acontecer num caminho é não ter opção. 

O ponto é que nem sei se quero tentar colocar a barriga de fora na academia, sabe? Mas estou com esse "projeto camiseta" dentro da minha cabeça. Minha professora plantou a semente. Nâo sei se ela colherá frutos disso. A ideia está amadurecendo aos poucos. A única coisa que tenho certeza é que só eu posso decidir me libertar da minha camiseta ou seguir livre dentro dela.  O tempo dirá. 


sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Rose Sand Beach










Vi uma foto da Rose Sand Beach que uma querida postou em sua página. E sabe quando, de repente, você é levada pro passado - nesse caso nem tão distante - e pra dias de pura delícia em um lugar maravilhoso? Pois foi exatamente o que aconteceu comigo. 

Olhando a foto da praia que fica nas Bahamas, fui remetida a um dos anos mais importantes da minha vida. O ano do nascimento do Miguel, em 2009. Era abril, tiramos férias e Namorado e eu estávamos muito felizes com tudo o que estava acontecendo na nossa vida. Estávamos com vontade de sermos pais, era um menino (vontade que eu nutria secretamente meio sem esperanças porque na minha família só nascia mulher) e minha gestação seguia tranquila apesar dos meus 37 anos. Eu me sentia envolvida por uma áurea de sonho, tranquilidade e paz. As inquietações e medos que vivi nos primeiros 5 meses de gestação já tinham ido embora. Sentia-me muito corajosa no meu sétimo mês de gestação. Nem minha ´gordice´, o tamanho da minha bunda ou meu nariz inchado conseguiam abalar minha confiança no futuro.

Bahamas são várias ilhas e por isso mesmo é que acho um pecado as pessoas fazerem um cruzeiro de um dia por lá e dizer que é suficiente. Não é. Se você quiser conhecer mesmo, melhor ficar por lá - em Nassau - e fazer os vários passeios que levam você de barco pras ilhas e, desse jeito, você fica um dia em cada uma delas, normalmente com um carrinho pra se locomover a vontade e no seu tempo. E a Harbour Island é imperdível. Lá fica a Rose Sand Beach e foi especial pra gente porque nessa praia única passamos a tarde mais inesqueível da viagem. É, sem dúvida, a melhor praia das Bahamas e olha que fomos à muitas com toda calma. Como se não bastasse ter a areia em tom de salmão e rosa, Rose Sand Beach tem as águas, que completam o ar de paraíso, em seus tons de azul turquesa. E, mais, você tem a impressão em vários momentos que a praia é só sua, porque não é frequentada por muita gente. Inacreditavelmente lindo. Inacreditavelmente inspirador. O lugar parece ilusão. 

Ali o tempo parou pra gente. Apenas nós dois e meu barrigão de 31 semanas existíamos. Eu não fazia a menor noção de que 15 dias depois eu estaria vivendo as 2 semanas mais angustiantes da minha vida, quando Miguel resolveu chegar prematuramente. De qualquer jeito, o gosto daquele dia, a brisa morna no meu rosto, a lembrança de nós dois deitados na areia cor de rosa e mergulhando juntos naquele mar turquesa, vai morar pra sempre dentro da gente. Que lugar!

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Os Filhos Maravilhosos do Facebook



Estava conversando com minha irmã sobre filhos. É um assunto recorrente entre nós e quem tem filho sabe bem porquê. Essas criaturinhas ocupam nossos minutos e nosso pensamento quase o tempo todo - ou seria o tempo todo mesmo? Às vezes acho que já me acostumei a isso, a não ter meu pensamento só pra mim, a dividí-lo o tempo todo com o Miguel. Às vezes, ainda me assusto. Pois bem, estávamos conversando que eu e ela - apesar de termos filhos fofos, carinhosos, bacanas e tal - não temos esses filhos que a gente chama de "os filhos maravilhosos do facebook". 

Já repararam que o filho de todo mundo no facebook é perfeito ou quase? Os filhos do facebook amam estudar. São organizados, arrumam seus quartos, fazem suas tarefas ao primeiro comando dos pais, não esquecem de nada, comem tudo. Ai... Eu canso disso sabe? Ou será que tenho inveja? Cara, não sei. Quando penso nisso e uso minha razão concluo, mais uma vez, que ninguém quer contar derrota né? E concluo, também, que perfeição não existe, não nesse plano espiritual no qual estamos todos nós. Mas essa coisa de todo mundo enaltecer seus filhos o tempo todo me dá um nervoso... 

Chego em casa e encontro o quarto do Miguel parecendo que um furacão passou por alí. Peço pra ele arrumar. Uma, duas, três mil vezes, talvez. E ele só se mexe quando estou virando uma bruxa. Se é que vocês me entendem. Se eu não falar pro meu filho escovar os dentes, ele é capaz de ficar dias sem lembrar que dentes existem! Banho?? O garoto parece um bode! Tenho que ficar em cima, do contrário ele mente pra mim dizendo que já tomou banho quando nem perto do chuveiro passou. Quando finalmente vai pro banho, tira a camiseta e joga pra um lado, tira o short e joga pro outro. Tira a cueca e sai dançando pelado com a cueca na cabeça até decidir jogá-la pro alto também.  Ele nunca coloca a roupa suja no lugar destinado a elas. Eu sempre tenho que pedir que o faça. Agora que está de férias, só o que sabe me dizer é que está rezando pra elas não terminarem nunca. Ai, gente... Ele só tem 5 anos. Por aí já dá pra avaliar o tamanho do meu sofrimento nos anos vindouros.

Lidando com tudo isso na minha casa, ao abrir o facebook e olhar posts e mais posts de gente falando que o filho é a oitava maravilha do mundo, é preciso ter muito discernimento pra não me abalar. Muitas vezes acho que a melhor solução é eu pensar que é mentira. Ok. Mas e se for verdade? Seriam essas pessoas super mães e pais? Seria eu uma bosta de mãe? Seria eu uma criatura que não sabe controlar o filho ou fazê-lo entender a importância de tarefas simples? Olha, não sei não. Eu sou do jeito que aprendi com minha mãe. E eu cresci ouvindo minha mãe reclamar um monte de mim e da minha irmã desde crianças até depois da fase da adolescência. Reclamava que a gente não tirava o uniforme assim que chegava da escola. Reclamava que só queríamos comer besteira. Reclamava se o quarto não tinha sido arrumado. E reclamava MUITO e principalmente aos domingos, quando a gente não tinha empregada, de que não tínhamos nem tido a decência de fazer a cama. 

Até por causa de uma dessas brigas, passamos uma vergonha danada uma ocasião. Era dia de domingo e a gente morava em uma rua, como em todo subúrbio, com certo movimento nas manhãs de domingo de gente que ia ou voltava da missa, gente que estava indo pra padaria comprar os últimos ingredientes pro farto almoço de domingo e gente que já estava indo pro boteco tomar sua gelada. Enfim, janela do quarto aberta pra vida entrar. Onze horas da manhã. Minha mãe, já estressada, entra no quarto aos berros perguntando se nós não íamos arrumar a cama. Sem nos dar chance de resposta, ela começou a gritar ainda mais alto aquelas coisas de mãe:

- Vocês não têm consideração comigo! São duas parasitas! Nem em dia de domingo arrumam as camas! Quero ver como vai ser a casa de vocês! Vão viver no chiqueiro! 

Enquanto esbravejava, resolveu começar a arrumar as nossas camas, afinal eu e minha irmã já tinhamos levantado delas há muito tempo na intenção de começar logo a fazer alguma coisa antes que nossa mãe tivesse um treco. Só que minha mãe sempre teve mania de almofadas e cada uma de nós devia ter umas 12 almofadas em formato de coração em cima da cama. E acho que todo mundo sabe o que acontece quando uma pessoa está com raiva e começa a gritar só que ninguém que está perto fala nada, não é mesmo? Pois é. A pessoa fica com mais raiva ainda. E aí, enfurecida, minha mãe começou a tacar as almofadas em formato de coração na gente. E nós estávamos perto da janela - aberta. Obviamente, toda vez que uma almofada vinha em nossa direção, nós nos esquivávamos e as almofadinhas de coração iam, uma a uma, parar no meio da rua, caidas do terceiro andar do prédio. Corações caindo do céu, diretamente para uma rua de Olaria. Minha irmã e eu tentávamos avisar a minha mãe sobre o que estava acontecendo, mas a doida não parava e a rua já estava cheia de corações fofos e cor de rosa. Até que um cabra que vinha passando resolveu começar a gritar lá de baixo:

- EEEEEIIIII!!!! Meninaaaaaaaaaaaa!!!! As almofadas estão caindo aqui em baixo!!!!

Ai, meu Deus. Que vergonha. Com a cara mais sem graça do mundo, chegamos perto da janela e eu disse fingindo surpresa:

- Aaaaaahhhhh.... Tá bom. Obrigada!

Enfim, tivemos que descer e catar as almofadas espalhadas pela nossa rua morrendo de vergonha. 

Lembrando desse episódio, vejo que minha mãe deve ter sofrido muito com a gente também. E hoje estamos aqui: vivas, organizadas, arrumamos nossas camas, não perdemos nossos compromissos, somos responsáveis e cumpridoras de nossos deveres. De alguma forma, a insanidade da minha mãe deu certo. A canseira dela pra nos educar funcionou. Eu e minha irmã não tínhamos o menor perfil desses "filhos maravilhosos do facebook", mas estamos aqui, somos gente normal (ou quase), gente que se importa com o mundo, com o próximo e que gosta de viver. E é nisso que vou me agarrar agora. Eu hei de vencer! O Miguel ainda vai me agradecer por tanta loucura e esforço pra torná-lo um cara maravilhoso. Não para o facebook. Pra vida. 



sábado, 10 de janeiro de 2015

É isso mesmo??




Pessoas matam em nome de Deus. Você compra um presente e quando a pessoa vai trocar, é tratada de forma diferente do que você seria tratada, sem dúvida alguma porque a julgaram pela cor da pele ou condição social. Sua tia vai ao mercado com seu primo altista e duas mulheres, descaradamente, resolvem "passar o tempo" da fila rindo dele. Tudo na mesma semana. Na boa? Está puxado viver.

Eu não sou padrão de comportamento ou atitudes. Vivo em luta comigo mesma, em luta com a parte bestial que existe em mim. Luto contra meus preconceitos, principalmente aqueles que acho que não tenho. Esses são os mais difíceis de irem embora. Mas já entendi, e faz um tempinho, que a dor do próximo é também a minha dor. E eu não consigo entender quem mata em nome de seja lá o que for. Eu não consigo entender quem trata diferente pessoas que não tem a mesma condição social, quem tem a cor da pele diferente, quem tem algum problema físico ou mental. Não consigo entender quem ri, quem debocha da dor humana. 

Eu sei, isso acontece todos os dias. Às vezes, descaradamente, na nossa frente, pra todo o mundo ver. Às vezes, pior, de forma velada, sem deixar às claras. Preconceito e ignorância disfarçados de mal entendidos. E parece que o certo vira o errado. O errado vira o esperto. O certo vira o bobinho que segue a vida sem sair dos trilhos e não ri do seu semelhante... E nunca "se dá" bem. Ninguém ridiculariza a bem vestida, de nariz em pé, que entra na loja e rouba e sai andando com cabides na mão como se nada tivesse feito. Ao contrário, ficam com vergonha por não terem visto, por terem sido "otárias". Ninguém ri do cara sem noção que quer furar fila, melhor rir do altista mesmo. Ninguém quer perder tempo ajudando um idoso a atravessar a rua, mas pode perder 20, 30 minutos, olhando uma briga sem nem pensar em fazer alguma coisa pra acabar com a barbárie. Ninguém se revolta ao ver alguém sendo rude com o porteiro do prédio. Quem é ele afinal? Melhor tratar bem o chefe, de quem poderá tirar algum proveito. Ninguém quer ensinar ao filho o que são limites, regras sociais, melhor criá-lo sem se dar o trabalho, afinal de contas, "o mundo é dos espertos" e está cheio de otários por aí. Ninguém quer entender que o outro fez uma coisa errada, que lhe magoou e buscar o entendimento mostrando, no diálogo, civilizadamente, seu diferente ponto de vista. Vamos lá e vamos matar quem é diferente ou pensa diferente de mim. 

E a vida segue e o mundo gira e eu rezo pra isso tudo mudar. Começo por mim mesma. Policiando minhas atitudes e meus pensamentos. Porque não posso interferir na sua atitude, mas posso mudar a minha. 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

O valor de um abraço



Felizes aqueles que podem abraçar os que amam. Quanto de amor cabe num abraço? 

Hoje, véspera de Natal, desejo que todos possam abraçar sua família, seus amigos. Desejo que todos possam dar valor às pessoas que estão por perto, porque sempre há alguém que merece um abraço carinhoso, um abraço de amor, um abraço de felicidade, um abraço sincero. 

Não tenho perto de mim todos aqueles que gostaria de abraçar. Uns porque já estão em outro plano e outros por não estarem perto geograficamente. Mas com certeza abraçarei todos que estiverem perto de mim. E abraçarei os que estão longe em pensamento. Porque hoje é noite de Natal!! É noite de felicidade!

Feliz Natal a todos!

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Quem meu filho beija, minha boca adoça



A vida está corrida e o trabalho não dá trégua nessa época, mas não posso deixar de registrar algo de muito bom que aconteceu esse ano.

Quando Miguel começou seu Jardim III confesso que fiquei apreensiva ao saber que a professora que iniciaria o trabalho com a turma seria substituída em junho pela professora que voltaria de licença maternidade. Achei que meu filho já estaria acostumado com uma e que teria que se adaptar novamente ao jeito da professora que retornava. Enfim, preocupações bobas de mãe porque a gente sabe que os filhos se adaptam rapidamente às mudanças da vida e isso não seria um problema. Na verdade, o que eu achei que seria algo "chato" tornou-se um presente de Deus. 

Todos sabemos que existem afinidades entre as pessoas e que, muitas vezes sem sabermos explicar, nos identificamos ou não imediatamente com alguém. E acredito que isso tenha acontecido com meu filho. Ele não se conectou com a professora que ficou com a turma até junho, não criou vínculos, simplesmente não aconteceu. E isso, é claro, refletiu em sua vontade de estar na escola. Eu, como professora, sei o quanto é importante buscarmos caminhos para chegar em cada aluno, para conseguirmos uma ligação qualquer, um atalho que seja, pra alcançarmos um modo de ensinar. Com 20 alunos em uma sala, a única coisa que é certa e que todo professor deveria saber, é que serão 20 alunos totalmente diferentes um do outro e que o modo de aproximação usado com um, não necessariamente, dará certo com outro. É preciso, por mais experiência que se tenha e por mais anos dentro de sala de aula que se carregue no currículo, saber se reinventar e acompanhar mudanças. Enfim, algo não estava dando certo com o Miguel no primeiro semestre do ano.

Enfim, junho chegou e com ele chegou a Carla. Até acredito que meu filho tenha gostado dela de cara, mas acredito mais firmemente que a Carla soube construir um relacionamento de confiança total com ele. Pouco a pouco, Miguel aceitou a mão que ela vinha estendendo a ele. E não soltou mais. Carla soube ler meu filho, soube entendê-lo e, portanto, soube tirar do Miguel o melhor. Miguel parou de reclamar que tinha que ir pra escola - coisa que nunca tinha acontecido nos 2 anos anteriores e que vinha acontecendo com frequência nesse ano, e seu desempenho deu um salto. Os desenhos, antes mal feitos e rabiscados, viraram formas facilmente identificáveis, cheias de cor e capricho. Miguel retomou a confiança que estava abalada. E, apesar de se cobrar muito e de não querer errar, respondeu aos estímulos com fé em si mesmo. Carla foi a responsável direta pela recuperação da auto-estima do meu filho, justo ele que sempre foi um menino tão seguro e firme, precisou de um resgate. E, graças a Deus, o resgate foi feito por esse anjo em forma de professora doce e carinhosa. O resgate veio através da Carla. 

Hoje, fim do ano letivo, só posso e devo agradecer. Primeiro à Deus por sempre me mostrar que por mais que as coisas pareçam esquisitas a princípio, tudo acontece por uma razão e, nesse caso, Deus sabia que a troca de professor seria uma benção pra mim e pro meu filho. Segundo, devo agradecer à Carla, por ter exercido sua função tão lindamente, tão cheia de entrega. Por não ter tido preguiça de tentar um caminho novo com o Miguel, por não ter achado, simplesmente, que meu filho não se interessava e ponto. Quando seria mais fácil achar que ele não "estava nem aí pra escola", ela resolveu percorrer uma estrada nova de mãos dadas com o Miguel. Quando seria mais simples assumir que meu filho não era caprichoso, ela optou por tentar conhecê-lo e buscar alternativas. Quando seria mais fácil dizer que ele não estava se desenvolvendo como os demais alunos, ela arregaçou as mangas e trabalhou. 

Por tudo isso é que posso afirmar que essa professora, talvez não tão experiente nessa longa estrada do magistério, terá um futuro brilhante. Ela sabe que cada aluno é um aluno. E porque ela é incansável na tarefa de ajudar a cada um deles, com todas as suas nuances e diferenças, em todas as suas sutilezas e esquisitices. Posso dizer que a Carla enxergou o meu filho. E, a partir de então, fez com que ele a olhasse nos olhos e confiasse nela. Benção pura. Que maravilha saber que existem muitas professoras como você! Faz muito bem ao coração saber que existem muitas "Carlas" espalhadas por aí. 

À você Carla, meu mais sincero agradecimento. Saiba que estará pra sempre no meu coração. 



quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Imagina quando tiver 16...






Sempre tive como objetivo criar meu filho pro mundo. Sempre quis que se virasse bem sem mim e que fosse feliz independente da minha presença. Nunca imaginei ter um filho agarrado comigo, que fosse minha sombra, sabe? Eu mesma sempre fui muito independente, adorava e adoro rua, festa, comemoração. Miguel é muito parecido comigo, apenas é muito mais carinhoso que eu. Definitivamente, uma edição de riso aberto como o meu melhorada.

Há 2 semanas ele foi pra Salvador com a avó, tia e primos. E, algumas vezes, supreendo-me observando como ele é desprendido e safo. Miguel viajou em uma sexta feira de manhã bem cedo e eu vinha falando com ele diariamente mas no domingo eu disse a ele que estava morrendo de saudade. Sabe o que ele me respondeu?

- Mãe, você sabe que depois desse dia (não sei porque ele não fala "amanhã") já é dia de eu voltar né?

Nossa. Tão sutil esse meu filho. Disse, em outras palavras, que eu não precisava ficar com tanta saudade uma vez que logo estaria de volta. Então, tá. Na segunda-feira, finalmente de volta, estava agarradinha com ele e cobrindo meu filho de beijos quando mais uma vez disse a ele:

- Poxa, filho, eu estava com TAAAANTA saudade de você!! 
E Miguel respondeu:
- Tá bom, tá bom, mãe. Mas, olha, eu já estou aqui! Pertinho de você!

Tradução: pára de frescura que você não precisa mais falar desse assunto de saudade porque estou aqui abraçado a você, ok?

Ok. Falar o quê?

O final de semana seguinte à sua viagem à Bahia, foi o final de semana passado. Já estava pensando em um cineminha com ele e tínhamos uma festinha no domingo e ele sabia dos nossos planos. Só que Hugo foi com ele na casa da tia pra consertar alguma coisa por lá e voltou sozinho. Miguel não quis voltar pra casa. Ficou com os primos, brincando com os gatos. (Miguel ama bichos e eu não os tenho. Nem terei.) À noite, voltou pra casa e eu pensando que ele fosse ficar, enganei-me redondamente. Na verdade, o maroto veio apenas pedir pra dormir na casa da tia pra no domingo ir à praia com eles. Gabriela disse que estava tudo certo, dando o aval pra que ele passasse o resto do fim de semana com ela. E, assim, meu filho correu pro quarto pra gente preparar sua bolsa e ... tchau. 

Dois finais de semana seguidos sem filho. Não me entendam mal, não estou reclamando não. Foi até muito legal! Mas... Isso não era pra estar acontecendo um pouquinho mais tarde? Coloquei no mundo um cara do mundo mesmo! Imagina esse moleque com 16 anos? Vou ter que acorrentar ao pé da mesa. 

Ontem foi a festa de formatura da Rafa. Crianças com 11 anos na festa. Quase nenhuma criança da idade dele. Você pensa que ele ficou perto de mim, sentadinho, quietinho por não estar ambientado? Ha ha ha. Miguel só vinha à mesa pra comer, porque disso meu filho nunca esquece. É bom de boca o danadinho. Miguel brincava no meio das crianças de 11 anos, com a maior desenvoltura. Lá pela meia noite eu já estava caindo pelas tabelas e falei pra ele que precisava ir pra casa. Aí ele me perguntou:

- Minha Dida vai ficar? 

Respondi que sim, que ela ainda ficaria mais um pouco. Pronto, seu "problema" estava resolvido:

- Então vai pra casa descansar, mãe. Mas me deixa aqui com ela, pode ir embora com meu pai. Eu estou numa festa! Quero aproveitar! Vai lá... Não fica andando atrás de mim, não, tá, gostosinha? Pode ir pra casa sossegada!

Como é? Ele me disse pra "não ficar andando atrás dele?" Foi isso mesmo? Sei lá. Nem sei.

O que eu sei é que só recebo elogios a respeito do comportamento do meu filho quando não está comigo. Todos dizem que é educado e que obedece. A tia diz que ele não dá trabalho algum e que é uma criança que topa tudo e não tem frescura. Fico orgulhosa e feliz por ver que meu filho é bem feliz longe de mim. Bom ver que ele aproveita a vida e os momentos que ela vem lhe proporcionando. 

Confesso que talvez não estivesse preparada pra um filho tão independente quanto ele. Mas acho que é melhor assim. Deus me presenteou com o filho perfeito pra mim. Pra que reclamar? Deixa eu pensar nos 16 anos quando eles chegarem, né?