terça-feira, 4 de novembro de 2014

Livros



Esse final de semana minha amiga Ana Portela me fez um desafio no facebook no qual a pessoa deve relacionar os 15 livros que marcaram sua vida de alguma forma. Sem pensar muito, eu devia relacionar os livros citando o título e o autor. E então comecei a lembrar deles, um a um. E como foi delicioso fazer isso porque lembrar de livros que foram importantes pra você, é como escutar uma música: você é remetido a uma situação, a um momento da sua vida, as lembranças vêm tão fortes que é quase como se pudéssemos viver de novo o passado. 

A leitura chegou pra mim muito cedo. Eu amo ler desde muito nova. E acho que nesse ponto, não ser hiperativa como minha irmã, me ajudou. Ler era uma "atividade" excelente pra mim e que combinava perfeitamente com meu jeito de ser. Eu podia ficar quieta, na minha cama ou sentada confortavelmente em uma cadeira e passar horas vivendo outras vidas e outras situações, conhecendo outros lugares, sem sair do meu lugar, sem me mexer. Era perfeito pra mim. Assim, enquanto meus amigos da escola reclamavam e muito de ter que ler os livros recomendados pela professora, eu agradecia. É claro que alguns títulos não eram tão legais, mas a verdade é que através da escola eu conheci o prazer de ler e, depois, de escolher outros livros, de acordo com meus interesses e crescente gosto literário.

Então, vamos aos livros dos quais me lembro assim, de supetão. 

O primeiro livro do qual não me esqueço foi "A Casa da Madrinha", de Lygia Nunes. Não é o nome completo da autora mas não estou me lembrando dele todo... Ganhei o livro da minha madrinha e lembro que era a história de um menino pobre que tinha que trabalhar pra ajudar nas despesas da casa e que encontrava na professora da escola - que usava métodos nem um pouco tradicionais de ensino - uma caminho pra ser mais feliz. 

Livro 2: O Menino do Dedo Verde, de Maurice Druon. Devo ter lido com uns 12 anos e me tocou profundamente. Acho que foi a primeira vez que entendi o amor como um caminho pras coisas erradas do mundo. Lembro de ter chorado muito no final da história. Engraçado que mês passado ao levar minha afilhada na "Esteira Cultural" da escola, havia vários livros pra cada família escolher pra ler e deixar depois em um lugar público pra que outra pessoa pudesse ler e bati os olhos nesse mesmo livro. Não pensei duas vezes e trouxe o livro pra casa. Li novamente pra tentar entender o que me tocou tanto. É um livro muito maior que uma menina de 12 anos poderia entender.

Aliás, existe isso: um livro pode ser considerado chato em determinada fase da vida. Entretanto, quando o lemos novamente mais tarde, podemos mudar totalmente de ideia a respeito daquela leitura porque muitas vezes um livro cai nas nossas mãos sem que estejamos prontos pra ele. É preciso estar aberto pra certos livros e em um momento de vida que lhe permita o entendimento. Além disso, muitas vezes o que nos marca em um livro quando o lemos com 15 anos é totalmente diferente do que nos marcará ao lê-lo com 25 ou 40. Nossa perspectiva vai mudando e esse é outro encanto que amo na leitura.

Livro 3: O Escaravelho do Diabo, de Lucia Machado de Almeida. Quem nasceu nos anos 70, com certeza leu pelo menos um livro dessa coleção que acho que se chamava "Vagalume". Nossa, eu li muitos livros dessa coleção!! Eu ADORAVA. Mas desse eu não me esqueço porque foi a primeira vez que li um livro de mistério. 

Livro 4: As Brumas de Avalon, Marion Zimmer Bradley. Tinha uns 13 anos e não foi recomendação da escola. Não esqueço dele porque foi o primeiro livro que pedi pra minha mãe comprar pra mim. Eram 4 volumes e li os quatro. Amei porque contava a história do rei Arthur sob a perspectiva feminina.

Livro 5: O Grande Mentecapto, Fernando Sabino. Achei divertidíssimo e muito inteligente. Lembro de ter parado pra pensar que tudo na vida tem uma consequência enquanto estava lendo esse livro. 

Bom, aí eu comecei a conhecer os clássicos da literatura brasileira. Minha mãe trabalhava no Banco Central e lá havia uma biblioteca maravilhosa! Eu virei rato de biblioteca. Que paraíso era aquele onde eu poderia pegar os livros que quisesse pra ler sem pagar? Meu Deus! Foi a descoberta do ano pra mim! Minha primeira tentativa foi logo com Machado de Assis e preciso dizer que foi um fracasso! Machado não é pra qualquer um, principalmente se esse "qualquer um" for novo. Eu tinha uns 15 anos e ainda não estava preparada pra tanto detalhe. Mas não me rendi. Voltei ao Machado depois de uns anos. 

Livro 6: O Tempo e o Vento, Erico Veríssimo. Sete volumes lidos vorazmente tamanha minha paixão pelo Capitão Rodrigo. 

Livro 7: A  Moreninha, Joaquim Manuel de Macedo. Estava numa fase romântica e o livro veio bem a calhar. 

Livro 8: Vidas Secas, Graciliano Ramos. Foi uma chamada de despertar pra mim. Lembro que ainda estava na fase romântica quando ela foi interrompida por Vidas Secas. Sim, porque esse foi um dos livros que li por conta da escola. E eu não estava muito a fim. Mas o livro me encantou. 

Livro 9: O Cortiço, Aluísio Azevedo. Gente, que livro divertido!! Eu gargalhava. 

Livro 10: Olhai os Lírios do Campo, Érico Veríssimo. Voltei pro romance em grande estilo.

Livro 11: Violetas na Janela, psicografado por Vera Lucia de Carvalho. Foi meu primeiro livro espírita e foi dividor de águas pra mim. Por causa desse livro, li Nosso Lar, logo depois. 

Ai, meu Deus... Já está acabando e ainda tem tanto livro pra relacionar... Deixa eu colocar logo um do mestre Sidney Sheldon!!! Poderia dizer todos porque sou apaixonada por seus livros, mas vou escolher um.

Livro 12: A Ira dos Anjos, Sidney Sheldon.

Livro 13: Helena, Machado de Assis.

Livro 14: Senhora, José de Alencar.

E não posso deixar de citar porque amo MUITO:

Livro 15: Harry Potter, J. K. Rolings Todos os livros, do primeiro ao sétimo. Já li duas vezes e lerei mais algumas, de certo. 

Aaaahhhhh Já acabaram os 15... Como assim?? Ainda tenho tantos pra livros maravilhosos pra relacionar... Nossa, faltou "O Caçador de Pipas", Khaled Rosseini. Livro que me fez chorar baldes. Meu Deus, faltou "O Velho e o Mar", Hemingway. Esse deveria ter colocado entre os 15, sem dúvida. Que livro maravilhoso... O Nome da Rosa, Umberto Eco, também deveria estar entre os 15, além de Razão e Sensibilidade, Jane Austin; A Revolução dos Bichos, George Orwell; Perdas e Ganhos, Lya Luft; Ensaio sobre a Cegueira, José Saramago; Crônica de uma Namorada, Zélia Gattai; Capitães de Areia, Jorge Amado; O Diário de um Mago, Paulo Coelho; A Distância entre Nós, Thrity Umrigar; e por aí vai... 

Querida Ana Portela, desafio cumprido. Mas, olha, poderia citar tantos, mas tantos livros... Esse foi um desafio maravilhoso. E só me deu mais vontade de ter muito tempo pra ler todos os livros que ainda quero ler!! 

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Gordinha



Nunca fui gordona mas também nunca fui magrela. Sempre gostei de comer e amo doces, mas, por ter tendência pra engordar, tenho que tomar cuidado. Quando criança eu era muito desligada dessas coisas de tipo físico considerado ideal, peso, dieta. Só que convivia com minha irmã que SEMPRE foi ligadérrima nessas coisas e eu não conheço ninguém com cuidado maior com o peso que ela. Por isso, acabei vendo que tinha que tomar cuidado pra não engordar.

Sempre fiz atividade física e isso devo também à minha irmã. Foi dela a ideia de entrarmos no ballet e desde os 6 anos nunca mais deixei de ter uma atividade física, graças a Deus. O ballet também é uma coisa muito louca porque a criança é meio que adestrada, logo que começa a ter entendimento de seu tipo físico, que nem sempre querer é poder. Quero dizer que embora eu amasse dançar, nunca tive o tipo físico de bailarina e vivia em briga com a balança não pra ser magra, mas pra ser muito magra e me enquadrar no padrão exigido no meio. Era chato. Imagine que hoje tenho 57 quilos e quando fazia ballet pesava 52 quilos e ainda era considerada gorda. É muito ruim. Só pararam de encher o meu saco quando eu pesei 49 quilos e, vou lhe dizer, eu estava um horror. Não gosto nem de pegar fotos dessa época porque eu parecia um pirulito. Minha cabeça ficou gigantesca porque era a única coisa que eu tinha. Além disso, pra piorar, uma cabeça gigantesca com dentes gigantescos. Enfim, a visão do inferno.

Desde então, tomo cuidado com o que como. Não sou de grandes quantidades e com uma irmã nutricionista fica mais fácil tirar as dúvidas e se aconselhar. Aprendi que comer várias vezes ao dia e em pequenas quantidades é melhor que ficar horas sem comer nada e bater aquele pratão de estivador. Como toda hora, é verdade. Sinto fome toda hora. Mas como pouco. Não abro mão do meu chocolate todos os dias, eu amo. Acho que se desistisse desse prazer seria mais magra, mas existem coisas na vida das quais não estou disposta a abrir mão e meu sagrado chocolate é uma delas. Hoje mantenho meu peso sem muito esforço e acredito que a ginástica de todos os dias, bem cedo, é a minha fórmula. 

Detesto quando engordo, não me sinto bem, as roupas não ficam bem, enfim, não me gosto mais gordinha. Achei a paz com 57, 58 quilos e não quero pesar mais. Se eu gostaria de pesar menos? SIM!!!! Gostaria de pesar os 53 quilos da época do ballet, mas às custas de tanto sacrifício que me dá muita preguiça e me contento com esse peso mesmo. Malhar, pra mim, já é uma questão de saúde, nem passa pela minha cabeça ficar gostosona porque não tenho mais idade pra pensar nisso, né? Se o corpinho se mantiver como está e eu puder atrasar a ação da gravidade, já me dou por satisfeita. 

Fazendo todas essas colocações, deve-se imaginar que ser chamada de "gordinha" é péssimo pra mim. Está aí um adjetivo com o qual não simpatizo. Seja de que jeito for, né? Sim, porque as pessoas tem o dom de inventar modos alternativos de lhe chamar de gorda sem usar a palavra em si. Dizem que você está "mais fortinha", "mais cheinha", "fofinha", "mais bochechuda" e até, em último caso, dizem que você está "diferente". Mas como a vida tem suas surpresas e como diria Lulu Santos "tudo muda o tempo todo no mundo", ontem eu estava deitada na minha cama e lá vem meu filho delicadinho que só:

- Mamãe!! Quero ficar grudadinho com você!! Vamos ficar abraçadinhos? 

Ai, que amor... Mãe devidamente derretida e achando o filho a coisa mais gostosa desse mundo, abri o maior sorriso e disse ao Miguel que isso certamente é a melhor coisa da vida. Aí, Miguel veio e praticamente se derrubou em cima de mim e me apertou até tirar meu ar. Abriu aquela boquinha delícia da minha vida e falou:

- Deixa eu te abraçar, gostosinha! Vou te encher de beijos, minha gordinha lindaaaaaaa!!!!! 

G O R D I N H A. Sim, foi exatamente essa a palavra que meu filho amado usou. Em meio a tantos beijos, ele diz que sou sua gordinha linda. E quer saber? Eu nem liguei! Foi um "gordinha" tão gostoso, tão feliz, que não me importei. Pra ele, posso ser gordinha. Serei sempre a "gordinha do Miguel". E posso afirmar que estou gostando. De ninguém eu gostaria de ouvir esse adjetivo, mas ele... Ah... "Gordinha" tem sabor de "magrinha". Na boca do meu filho, "gordinha" tem sabor de "bonitinha". E se o "gordinha" continuar vindo acompanhado de tantos beijos e de tanto amor, eu estou querendo é mais!!! E viva as gordinhas bem amadas e doces como chocolate!!

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Peteleco

Jô e eu (no meio)
5 anos

Jô, em pé de saia lilás e eu abaixada
6 anos

8 anos (depois de um surto no qual pelei meu cabelo)

Eu abaixada com as mãos no colo da Jô - 16 anos


Toda criança tem um amigo inseparável. Pode ser que o amigo inseparável varie de tempos em tempos, mas há sempre um. No meu caso, eu tive uma amiga de infância que me acompanhou do jardim até a universidade. Estudávamos na mesma escola, na mesma sala de aula, fazíamos ballet juntas e inglês também (até ela desistir do inglês). Enfim, onde eu estava, provavelmente a Jô estaria e vice-versa. 

Eu sempre tive amigos que eram muito diferentes de mim. Lógico, com afinidades mas com jeito muito diferente. Não sei se inconscientemete eu já sabia que aprendo mais com o diferente que com o semelhante. Mas eu e a Jô éramos unha e carne e a gente ria muito uma da outra e uma com a outra. Eu era boa em umas matérias e ela em outras e a gente se ajudava. A mãe dela nos dava carona em seu fusca pra cima e pra baixo porque não trabalhava. Minha mãe estava sempre na rua porque trabalhava fora. Ela me sacaneava muito - principalmente quando se juntava com a minha irmã - por causa do meu jeito que ela dizia ser "intelectual". Eu gostava de passar horas quieta na minha cama lendo todo tipo de livro enquanto ela sempre foi mais agitada. Enfim, entrava ano e saía ano, eu e Jô seguíamos juntas. 

Nós devíamos ter uns 11 anos e não me lembro o motivo, mas estávamos sentadas juntas na sala de aula esperando o professor que estava atrasado. Como a gente sempre tinha assunto de sobra, estávamos sempre conversando. Ainda mais sem professor em sala. Aí, uma inspetora nova na escola, não consigo me lembrar do nome da mulher, entrou em sala de aula pedindo a todos silêncio. Ela ficou andando de um lado pro outro, feito cão de guarda, tomando conta dos alunos enquanto a professora não chegava. Passaram-se 5, 10 minutos e , lógico, o silêncio foi se tornando cada vez mais difícil de ser mantido. Como fazer 30 alunos ficarem calados, sentados em suas carteiras, por mais de 10 minutos sem dar-lhes nenhuma atividade? Então, não é difícil de deduzir que, depois de 10 minutos feito estátuas, Jô e eu começamos a conversar baixinho. 

Estávamos mesmo conversando baixinho, mas como estávamos sentadas na primeira  fileira, a diaba nos viu e veio em nossa direção. Sem mais nem menos, sem dó e nem piedade, nada falou. Apenas me deu um peteleco na cabeça e outro na cabeça da Jô. 

- Eu não disse pra ficarem calados?, rosnou a supervisora. 

Eu olhei incrédula pra ela. A Jõ olhava pra minha cara com ódio saindo pelo olho. Pensei até que ela fosse falar alguma coisa. Engulimos nosso orgulho e não falamos nada. A sala de aula inteira calou-se, obviamente com medo de levar petelecos na frente de todo mundo. Fiquei com a dor do peteleco e a vergonha o dia inteiro. E também uma vontade dentro do peito de ter feito alguma coisa, de ter falado alguma coisa. 

Os tempos, definitivamente, eram outros. Imagina uma cena dessas nos dias de hoje? Não, nem dá pra imaginar. Parece piada.

Quando minha mãe chegou em casa à noite, contei pra ela o que tinha acontecido. Eu era criança mas sabia, mesmo que ninguém tivesse me dito, que aquela supervisora doida não poderia ter feito aquilo comigo. Nem com a Jô. Minha mãe ficou raivosa e hoje imagino o que ela não sentiu quando contei do peteleco. A raiva era maior porque, por algum motivo importante do trabalho, ela não poderia ir na escola no dia seguinte pra falar do ocorrido na coordenação. Ela teria que esperar mais outro dia até resolver a questão. Em compensação, a Jô me falou que a mãe dela iria até a escola no dia seguinte. 

A mãe da Jô, Dona Marlene, ficava sempre na porta da escola. Nesse dia ela não entrou junto com a Jô. Eu estava ansiosa, querendo ver a mãe da Jô entrando na escola e se dirigindo à secretaria pra reclamar. Afinal de contas, meu rosto ficava vermelho só de lembrar da dor do peteleco. Dor na minha cabeça e de humilhação. Chegou a hora de formarmos para irmos pra sala de aula com o professor. Era nessa hora também que todos os supervisores ficavam pela quadra pra observar o grande número de alunos. E foi estrategicamente nessa hora que Dona Marlene entrou elegantemente portão adentro e se aproximou da quadra. Não pudemos ouvir, mas vimos ela falar com a coordenadora. Ela estava pedindo que chamassem a tal da supervisora porque precisava falar com ela. Era urgente. 

Quando a supervisora se aproximou dela, ficando frente a frente, disse:

- Pois não, no que posso ajudá-la?

A mãe da Jô, não abriu a boca. Levantou a mão e pimba! Tacou um peteleco na cabeça da supervisora na frente de toda a minha turma! A supervisora se fez de fragilzinha e falou:

- Ai, ai!! Meu Deus, o que é isso????

Dona Marlene, explicou:

- O que é isso? Isso é um peteleco! O mesmo que você deu na cabeça da minha filha ontem! Isso é pra você aprender a não dar peteleco na cabeça do filho dos outros porque se você fizer isso novamente eu vou voltar aqui na escola. Entendeu?

A mãe da Jô virou as costas pra supervisora que estava com a mão na testa, local onde foi dado o peteleco, e saiu pela escola soberana, cabeça erguida, como se estivesse mais leve, com a sensação do dever cumprido. Eu? Estava exultante de felicidade. Havia sido vingada. Mal via a hora de chegar em casa e telefonar pro trabalho da minha mãe pra contar o que havia acontecido. Definitivamente, minha mãe não precisaria chegar atrasada no trabalho no dia seguinte pra ir até a escola reclamar. Dona Marlene já tinha feito o que tinha que fazer. 

Hoje, todas as vezes que sinto vontade de dar um peteleco em alguém, querendo vingar uma injustiça ou covardia, lembro-me daquele dia. Lembro da cara de idiota da supervisora na hora que recebeu o peteleco inesperado. Lembro do dia em que fui vingada pela mãe da Jô. E fico rindo sozinha. 

Realmente, eram outros tempos...


quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Manias



Fico me perguntando, às vezes, se eu já tinha as manias que tenho hoje desde sempre, se estou tomando consciência delas agora que me conheço melhor ou se são coisas da velhice mesmo. Na verdade, eu já tenho algumas manias desde nova, sim. E não sei se minhas manias incomodam os outros, mas devem incomodar porque as manias dos outros incomodam a gente né? 

Bom, eu tenho mania de usar as coisas até o final. Final mesmo. Não posso jogar fora o tubo de pasta de dentes se ainda tiver um pingo lá dentro. Não posso perder minha caneta se ela ainda tiver carga porque terei um ataque psicótico caso isso ocorra. Tenho que ver minha caneta acabar pra depois jogá-la no lixo. Eu mesma tenho que jogar a caneta no lixo. Não pode ser outra pessoa. Entendam, não tenho apego à caneta. Se é amarela, desenhada, presente de alguém. Eu só preciso usá-la até o fim. Só. 

Seguindo a mesma linha, tem o sabonete. Eu colo um sabonete no outro quando está acabando. Coisa de pobre, diriam alguns. Pra mim, é coisa de louco que precisa ver o sabonete que está terminando ir sumindo coladinho no sabonete novo. E pra que eu possa ver isso acontecer, colo sempre o sabonete que finda, em outro de cor diferente. 

Eu me peso todos os dias, pela manhã. Sim, todos os dias, logo depois de escovar meus dentes, em jejum. Só quebro essa rotina se estiver em viagem. 

Eu tenho mania de arrumar meu armário. Uma vez por mês eu arrumo as gavetas, tiro as roupas dos cabides, organizo separando saias, vestidos longos, vestidos mais curtos. E até aí tudo bem, porque como arrumo sempre, nunca está tão bagunçado. Acontece que o pior é que eu tenho que experimentar minhas roupas quando estou arrumando. Experimento antes de guardá-las. É uma loucura. Eu fico me perguntando porque faço isso. Poderiam dizer que eu não tenho o que fazer, que é falta de um tanque de roupa suja pra lavar. Mas o que não me falta é coisa pra fazer. Mas eu sempre arranjo um tempo pro meu armário. Sempre. 

Se tem uma coisa que me enerva é quando estou assistindo algum filme com o Namorado e ele dorme. Como é que pode dormir em cinema, gente? Eu não posso dormir. Porque vou ter a sensação estranha de que perdi alguma coisa, sabe? Então por mais que eu esteja detestando o filme, eu tenho que vê-lo até o fim. NUNCA saí na metade de nenhum filme. E NUNCA abandonei um DVD. Eu assisto a bosta de filme até o final, por mais patético e cansativo que ele possa ser. Tenho mania de começo, meio e fim. Eu termino o que começo. E isso se dá com livros também. Se eu começar a ler um livro, mesmo que o ache sacal, chato, enfadonho, não me permito uma carta de alforria, fico me torturando até a última página. Sinto-me meio "Monica Geller" (do seriado Friends), como se tivesse que vencer aquele livro chato ou desinteressante, como se tivesse que provar que ninguém ou nada vai me derrotar ou fazer desistir. O pobre do Hugo fica escutando coisas do tipo: "Que autor mais idiota!" ou "que história mais imbecil" ou "que livro chato"... E ele me pergunta:

- "Paula, pelo amor de Deus, vou ter que ficar escutando você reclamar desse livro até quando?? Larga isso pra lá, escolhe outro pra ler!!"

Mas eu não largo. Vou até o fim. 

Eu travo uma competição comigo mesma. Se na minha agenda do dia estiverem relacionadas 20 tarefas, eu só sossego se tiver conseguido fazer as 20. Nada me tira do foco. É quase uma obsessão. E pra isso eu perturbo as pessoas que estão ao meu redor. Mas se tem uma coisa que me dá prazer, é colocar as letrinhas "OK" no meu ipad ao lado das tarefas realizadas.

Vejo as manias das pessoas ao meu redor. E isso me consola. Aqui no trabalho tem uma que não pode ver clipe no chão. Ela precisa pegar. A outra tem que trocar a camisola todo dia. Tem que ser uma diferente pra cada noite da semana. Tem um professor que toda vez que viaja tem que comprar cueca nova. O Namorado não gosta que eu deixe o volume do som do carro em número ímpar. Ele sempre muda pra um número par. Meu tio diz que o rolo de papel higiênico tem que ficar de modo que a parte solta passe por cima do rolo.  E por aí vai. Assim, podemos concluir que "de perto ninguém é normal".  

E aí, quais são as suas manias? Ou seriam loucuras? 




sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Macuco Safari





Desde que saí do Rio de Janeiro pra visitar Foz, tinha certeza de duas coisas: conheceria as Cataratas e faria o Macuco Safari. O Namorado tentou tirar essa ideia do safari da minha cabeça, disse que poderia ser perigoso e até lembrou do acidente ocorrido há uns anos quando dois barquinhos se chocaram e uma mulher morreu. E eu nem aí. Decidida e cheia de coragem que sou, não deixaria passar a oportunidade. 

Dois dias antes de nossa chegada, o Macuco Safari estava fechado por conta do volume das águas. Houve muita chuva por lá nas últimas duas semanas e não só o safari estava fechado como também algumas passarelas do parque que encontravam-se em baixo de água. Só que o safari estava aberto. E lá fomos nós. Miguel era o mais desavisado, coitadinho. Pensava que estava indo em alguma atração da Disney. Vestimos nossas capas de chuva e fomos lá. Eu e Miguel sorridentes e Hugo mais cauteloso, como se adivinhando o que viria pela frente. 

O barco começa andando em um ritmo tranquilo, até gostoso eu diria. Só que depois de determinado momento, com as águas bem revoltas, a velocidade que o diacho do barquinho ganha é assustadora. A frente do barco chega a levantar e a impressão que se tem é que vamos levantar voo pra depois bater nas pedras com força. Isso se repete várias vezes. Não preciso nem dizer que eu estava apavorada. Hugo, que era quem não queria fazer o passeio, estava com a cara tão tranquila como se estivesse deitado no sofá de casa. Eu estava com o estômago pelo avesso e Miguel estava apavorado. Quando o homem que conduzia o barco parava no meio das cataratas, ele deixava o barquinho "meio à deriva" por alguns segundos e depois acelerava novamente. Eu queria sumir. Parecia que estava em um filme de terror.

Meu filho de 5 anos começou a falar bem alto, sem parar, olhando pra mim com uma cara de indignação total:

- A culpa é sua! Você é quem queria entrar nesse barco! Você é uma mãe louca!! Você é doida! Sua mãe doida!! Me colocou nesse barco!!

Nessa hora, eu que já estava nervosa e cheia de medo, tive um ataque de riso. Eu ria tanto que chorava de tanto rir. O barco inteiro deveria estar com pena do menino e me achando uma megera sem coração. O Hugo tentava acalmar o Miguel e meu ataque de riso não estava ajudando em nada porque Miguel começou a pensar que eu estava rindo dele. Só que eu estava rindo de pavor. O passeio estava durando uma eternidade e eu não via a hora de pisar em terra firme. No final, Miguel já estava mais calmo, Hugo estava com aquela cara de "eu te disse" e eu estava com cara de desespero com a maquiagem toda borrada porque nem o lápis de olho mais poderoso à prova de água resistiu à força daquelas quedas e aguaceiro sem fim. Saí de lá com medo e parecendo um panda. 

Miguel, depois que tudo acabou, seguiu à risca o ditado que diz: "depois que passa, a gente ri" e todo felizinho, esquecendo-se que 5 minutos antes tinha me chamado de louca, disse que queria ir de novo. E aí foi minha vez de gritar: 

- Pois você que vá com seu pai porque nesse barquinho ninguém me enfia nunca mais!! Nunca mais mesmo!!

E tenho dito.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Foz do Iguaçu







Incrível que eu goste tanto de viajar e nunca tenha nem pensado em conhecer Foz do Iguaçu. Só que de uns 2 anos pra cá eu já vinha ficando sem graça quando meus amigos de fora perguntavam sobre Foz e eu não tinha referência pra dar por nunca ter visitado morando tão perto. Sempre que converso com algum estrangeiro, invariavelmente Foz do Iguaçu e Rio de Janeiro são citados como os "locais desejo" dentro do Brasil. E eu sem conhecer essa maravilha da natureza. Por isso, comecei a achar surreal que eu não tivesse até hoje tido a honra de visitar Foz. Eu já conhecia Niagara Falls no Canadá e não conhecia Foz. Como pode? 

Esse ano, eu e Hugo tínhamos planejado uma viagem pequena só pra nós, já que tiramos férias longas com o Miguel em abril. E escolhemos Foz do Iguaçu pra passar 4 dias. Só que Miguel disse que queria ir junto e cedemos. Miguel ficou animado pra conhecer as cataratas e foi, de fato, um passeio muito legal pra ele também. O Parque das Aves é imperdível pra quem vai com crianças porque tem um conceito um pouco diferente dos demais parques. Em um espaço grande, mas cercado, as aves convivem com as pessoas que as visitam. O mesmo acontece com as borboletas. Miguel adorou. Há também o recém inaugurado Vale dos Dinossauros. Miguel ficou louco. É bom deixar claro que se eu tivesse ido só com o Hugo não teria pago o ingresso (40 reais por pessoa) pra ver os dinossauros. Mas com criança vale a pena. Os dinossauros fazem sons e mexem e Miguel ficou bem feliz. O Vale dos Dinossauros fica ao lado do Museu de Cera (desses que tem em qualquer lugar do mundo).






Visitamos também Itaipu e o Templo Budista. Itaipu foi um pouco cansativo pro Miguel mas meu filho é um amor e aguenta bem qualquer coisa. O Templo Budista é um lugar lindo. Uma atmosfera de paz tão grande que difícil é querer sair de lá. É claro que visitamos o parque das cataratas do lado brasileiro e do lado argentino. No primeiro dia fomos no lado brasileiro. Fizemos logo o Macuco Safari - mas esse é tema pra outro post! E fizemos a trilha do parque. É realmente muito bonito. Mas confesso que ao final do dia, até meio sem graça, continuei achando Niagara Falls mais interessante, mais bonito até. Fizemos o passeio de helicóptero e tivemos uma vista espetacular. Apesar de ser um passeio curto (o voo deve durar apenas uns 15 minutos), Miguel estava muito excitado pra andar de helicóptero e valeu a pena porque o visual é demais.











Deixamos o parque das cataratas argentinas por último e acho que fizemos muito bem. Se até então eu tinha impressão que as cataratas do Canadá ainda eram mais bonitas, quando se está do lado argentino vemos que Niagara Falls não chega nem perto do espetáculo que são as nossas cataratas! Eu fiquei maravilhada mesmo. Que coisa mais linda, especial. É um show tão lindo da natureza, é a presença de Deus ali, na força daquelas águas e rochas. Inesquecível pra mim. Um lugar tão pertinho e tão maravilhoso.










Pra quem vai com criança, é bom escolher um hotel com estrutura. Nós preferimos ficar do lado argentino e nosso hotel tinha bons restaurantes, um parquinho e atividades pro Miguel. Chegávamos e ainda íamos a piscina com ele. A 100 metros do hotel ficava o Free Shopping argentino e bons restaurantes na redondeza. A 5 minutos de carro, tem uma feirinha que vende alfajor e doce de leite (sou apaixonada por doce de leite argentino) e muitas outras coisinhas. Eu levei o carrinho pro Miguel e foi bom. No parque do lado brasileiro tive um pouco de trabalho porque há muitas escadas nas trilhas e foi chato. Aí resolvi deixar o carrinho no hotel no dia do parque argentino e me ferrei, quer dizer, o Miguel se ferrou porque há poucas escadas nas trilhas e ele poderia ter usado o carrinho. De qualquer forma, se fosse alta temporada o uso do carrinho também seria complicado nas trilhas porque em muitos locais ela é estreita e ficaria difícil passar com o carrinho entre tanta gente. No final, deu tudo certo e mais uma vez Miguel foi um companheiro e tanto de viagem. Bem humorado, comia o que havia pra ser comido sem restrições e não reclamou de acordar cedo.  E agora posso dizer que conheço Foz do Iguaçú e que é mesmo um passeio lindo, com ou sem crianças. 

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

O Caderno

Quando a novela Carrossel passou, em 2012, Miguel até via alguns episódios porque sua prima, Rafaela, gostava muito. Só que Miguel era pequeno demais pra entender tudo, tinha apenas 3 anos. De uns tempos pra cá, como há todos os capítulos da novela na TV a cabo, Miguel adora assistir. Há quem não deixe os filhos assistir televisão, mas Miguel tem liberdade pra assistir o que gosta (desde que apropriado pra ele) e o resultado é que ele gosta de assistir a filmes de super heróis. Filmes de aventura tipo Harry Potter, Indiana Jones e De volta pro Futuro estão entre seus favoritos, gosta também de assistir umas comédias estilo besteirol junto com o pai (coisas de meninos mesmo!) e Carrossel. 

Através do meu filho, acabei vendo alguns episódios e gostei das questões levantadas pela novelinha. Trata de diferença racial, social, de como deve-se comportar não só na escola como na sociedade em geral e, como se não bastasse, a trilha sonora é maravilhosa. Por causa de Carrossel, Miguel canta "Ao Mestre com Carinho", "A Banda", "Aquarela", "João e Maria", "O Bom". Ontem, percebi Miguel cantarolando baixinho trechos de uma outra música de Chico Buarque (um compositor rei pra mim):

" ... a casa, a montanha, duas nuvens no céu... E um sol a sorrir no papel..."

Pensei: Caramba! Miguel está cantando outra música de Chico? Está cantando "O Caderno"? Perguntei a ele como conheceu a música, ele me respondeu que era do Carrossel e ainda me disse:

- Essa música me emociona, mãe. 

Ai, gente... Esse garoto me mata. 

Coloquei a música pra tocar e a gente escutou juntos do início ao fim. Depois, ele pediu que eu repetisse. 


Peguei Miguel no colo e saímos dançando e cantando, loucos e felizes pela casa e juntos repetíamos lindos e sorridentes:

" La la laia laia laia laia laia ...só peço a você um favor, se puder... Não me esqueça num canto qualquer."