quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Bom dia

Dou valor a um "bom dia". E sou praticante. Acordo bem cedo pra ir pra academia e encontro várias pessoas depois que estaciono meu carro, durante o trajeto de atravessar a rua e entrar na sala de ginástica. Dou bom dia a todos que cruzam comigo: do transeunte desconhecido aos meus amiguinhos de aula. 

Há um ano estou malhando nessa academia, tive que sair da antiga onde estava fazia muito tempo porque ela mudou de endereço e a localização não ficou legal pra mim. Enfim, há um ano a cara da recepcionista da academia nova me incomoda logo de manhã cedo. Há um ano, todos os dias, invariavelmente, passo pela recepção e desejo a ela um bom dia e há um ano somente recebo de volta algo falado entre os dentes - talvez um dialeto qualquer - na melhor das hipóteses. Na maior parte das vezes, ela está lendo seu jornal e nem levanta a cabeça pra olhar pra mim. 

E eu fiquei pensando nisso todas as vezes que entrava na academia. Pensava se chegaria o dia em que ela me devolveria o bom dia sorridente que desejo a ela. Eu sei, eu sei, o bom dia que desejo a ela devo fazer por mim mesma, pela educação que mamãe me deu e não esperando que ela responda. Mas como pode ser possível encontrar com a mesma pessoa de 3 a 5 vezes por semana e não responder seu cumprimento depois de um ano inteiro? Pra mim, é inacreditável. Entretanto, sempre tive em mente que não desistiria nunca. Daria meu bom dia da mesma forma, todos os dias, porque desejo, mesmo, do fundo do coração, naquele momento, que tanto ela, mera desconhecida da recepção e eu, tenhamos um bom dia.

Então, ontem, quando entrei na academia e fui recebida pela primeira vez com um sorriso e ganhei um "bom dia pra você também" de volta, fiquei, primeiro, surpresa, até boquiaberta. Depois, fiquei bem feliz. E lembrei do que minha mãe sempre diz: "Água mole em pedra dura tanto bate até que fura." Não sei se ela vai continuar me recebendo com um sorriso daqui por diante. Não sei se vai responder quando eu falar com ela todas as manhãs daqui por diante. Nem sei se, de repente, ela teve uma noite maravilhosa e estava achando o mundo lindo e, por isso, resolveu devolver meu cumprimento. Mas não importa pra mim. Ela só me deixou certa de que um "bom dia" feliz, de manhã cedinho, mesmo quando a gente tem milhões de coisas pra fazer e decisões importantes pra tomar, faz tudo ficar mais leve. O sorriso dela me fez lembrar que não há mal nenhum em desejar o bem, mesmo que estejamos com um sono louco. E ela me fez ter a certeza de que, sim, "é melhor ser alegre que ser triste."

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

O pedreiro

Minha irmã tem o dom de desencavar estórias do passado. Principalmente quando essas estórias fazem a gente morrer de rir juntas. Semana passada estávamos conversando sobre as aulas de tenis da Duda - filha mais velha da Sis - e ela estava me contando que a danada está jogando direitinho e que, quando a aula termina, ela ainda fica toda animada batendo bola com os "boleiros". Boleiros, pra quem não sabe, são os meninos que ficam na lateral da quadra enquanto rola o jogo pra resgatarem as bolinhas mas rapidamente para os jogadores. Aí, ela me falou que disse pro marido ficar de olho nesses jogos entre a Duda e os boleiros e eu perguntei porquê. "Não entendi, porque ficar de olho na Duda?" E ela respondeu: "É, ficar de olho porque daqui a pouco sei lá o que pode rolar enquanto eles estão jogando..." Perguntei a ela: "Mas quantos anos tem esses meninos?" E ela respondeu que eles têm em torno de 16 anos e, não é porque a Duda é minha afilhada e sobrinha, não, mas a menina é uma morena dessas de deixar qualquer menino louco. Um corpo escultural, uma bunda e uma perna de fazer inveja a qualquer malhadora, não tem um pingo de barriga a danadinha e uma carinha fofa demais! Enfim, perdição pra qualquer menino de 15, 16 anos que já está com os hormônios atuando na velocidade total... 

Então, eu falei com ela que a Duda nem está pensando nisso, que só tem 12 anos ... Aí ela desenterra uma estória minha de 1930 que, de algum modo, deve tê-la deixado traumatizada: "Pois é, a gente pensava que você também não estava nem aí pra nada disso e você já estava de olho no pedreiro, lembra?" Ai... Lembrar, lembrar, não lembrava, não. Tem coisas nessa vida que a gente prefere esquecer. Mas essas estórias parece que ficam alí guardadinhas pra gente poder se lembrar um dia e acabar rindo muito quando lembra. 

Eu e minha irmã éramos muito amigas de uma vizinha, a Andréa. Ela morava ao lado do nosso prédio e depois de alguns anos, a família dela comprou uma casa na rua de trás, só que da área de serviço do nosso apartamento conseguíamos ver toda a parte de trás da casa dela. Continuamos brincando muito juntas, lembro que era época de férias, eu tinha todo o tempo livre do mundo e devia ter uns 14 anos. A casa nova da Andréa ainda estava em obras, apesar de a gente viver indo até lá. Eis que um dia, chego na casa da amiga e me deparo com um rapaz que devia ter uns 17 anos, trabalhando na obra da casa dela, segurando uma enxada, debaixo daquele sol quente. O cara estava sem a camisa, usava uma bermuda jeans, todo suado. Cara, me lembro como se fosse hoje do peito dele suado, ele apoiando a enxada no chão e abaixando a cabeça pra enxugar a testa com as costas da mão. Gente, eu fiquei louca. Alguma coisa naquela cena fez meu coração pular e resultado: me apaixonei pelo pedreiro.

Lógico que não falei nada pra ninguém. Nem pra minha irmã e nem pra minha amiga. Mas quando eu não estava lá na casa da Andréa e podia dar uma olhada pra ele de vez em quando, eu estava na minha casa, por horas e horas, apoiada no parapeito da área de serviço entretida com a observação daquela criatura sem camisa trabalhando na obra da casa da minha amiga. Óbvio que não demorou muito pra Cleo - uma fofa que trabalhou anos na minha casa - perguntar pra minha mãe: "Ô, Dona Iris, o que tanto a Paulinha faz na área de serviço olhando pra casa da amiga???" Pronto. Ferrou. Todo mundo descobriu meu segredo. Na verdade, minha irmã que sempre foi muito esperta, cheia de maldade no coração, já tinha percebido há muito tempo e elas , a partir desse momento, me sacaneavam geral. Eu não estava nem aí. A coisa já estava evoluindo porque só um cego não perceberia que eu estava dando um mole danado pro pedreiro!!! E, em um final de tarde, finalmente, depois do dia de trabalho, a Andrea chamou o menino, que era o filho do mestre de obras da casa, pra ficar com a gente um pouquinho conversando enquanto o pai resolvia algumas coisas lá dentro com os pais dela. Enfim, nesse dia ele me chamou pra dar uma volta de bicicleta e eu, morta de medo de pagar um mico qualquer, cair da bicicleta - coisa que me acontecia com certa frequência - ou sei lá mais o quê poderia me acontecer nessa hora, fui. Não me lembro exatamente o motivo, mas paramos em uma rua próxima de casa, já na volta, e nos beijamos. E alí iniciou um namorico. Todo dia, depois da obra, ficávamos um pouquinho juntos antes de ele ir pra casa. 

Só que o pedreiro parecia um ogro. O lindinho sem camisa tinha os modos do Shrek!!! Era grosso toda vida, não tinha um pingo de delicadeza no trato com o sexo feminino e a coisa, é claro, não pode evoluir.  Além disso, o menino não queria saber dos estudos e eu NUNCA gostei de estar com meninos que  não me estimulassem intelectualmente. Inteligência é afrodisíaco pra mim tanto quanto um corpo malhado.  E, sendo assim, depois de 1 semana de passeios e beijos, esgotei minha cota de paciência e sumi da área de serviço e dei um tempo da casa da minha amiga também. Parei de olhar aquele peito lisinho todo suado porque me lembrava de como ele era rude no tratar, sabe aquela pessoa que precisa ser domesticada? Pois é, o pedreiro era assim. E, desse jeito, acabou-se minha pequena e encantadora experiência com o pedreiro. Nunca mais me interessei por ninguém que trabalhasse em uma obra, estando com ou sem camisa. 

Depois de todos esses anos eu já tinha até esquecido disso, se não fosse minha irmã me lembrar desse episódio, ele continuaria guardado lá dentro da cabeça em um cantinho bem remoto. Mas, como gato escaldado tem medo de água fria, minha irmã deve estar com um certo receio da filhinha linda repetir os passos da titia aqui e se enrolar com o boleiro do tênis. Será?

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

O lado bom

Essa semana fui almoçar com amigos do trabalho de quem gosto muito. E é sempre muito bom estar com pessoas legais e passar momentos rindo, compartilhando esse momento feliz e jogando conversa fora. Lógico que um dos assuntos foi sobre filhos. Mesmo que Malu e Renata não os tenham, são rodeadas por amigos e familiares com crianças e o assunto não é problema pra elas. 

Quanto à Malu, não sei se um dia terá filhos. Ainda não conversei com ela sobre isso. Entretanto, durante aquele almoço, durante aquela conversa toda sobre tantos assuntos, vi nos olhos na Renata algo diferente, algo que não via antes. Acho que está chegando a hora de ela e seu marido trazerem um bebê fofo pra vida deles. Não estou falando isso por ser vidente, ter bola de cristal ou coisa que o valha. Falo porque nela enxerguei a mim mesma há alguns anos. Falo porque vi em seus olhos um brilho que via nos meus quando me decidi, quando decidi que ser mãe seria uma experiência válida e que traria, entre tantas coisas, ainda mais amor pra mim e pro namorado nessa vida que estamos construindo. Os olhos da Renata são olhos de quem está sentindo que a vontade é maior que o medo, são olhos de quem pressente que a mudança por vir vai ser boa, olhos de quem quer pagar pra ver.  

E eu, que não romantizo maternidade, que não acho tudo lindo nem fico floreando meu dia-a-dia, que tento ser o mais verdadeira possível, comigo e com os outros, tenho que falar do lado bom também. Porque ele existe! O lado bom de ser mãe é quase um estado de espírito. Do mesmo modo que a culpa me acompanha sempre, o sentimento divino de amar de um jeito inexplicável também está sempre comigo. 

Minha vida mudou tanto desde que o Miguel nasceu. Muito mesmo. Mas não foi pra pior. Mudou e pronto. O nascimento do meu filho significou o surgimento de uma vida diferente pra mim. Vivo outra vida, é fato. Só que mesmo que sinta saudade da vida antiga, não quero mais voltar pra ela. Acordar e olhar pro rosto do Miguel não tem substituição pra mim. Não há nada que se compare ao meu coração TODOS os dias quando estou chegando na porta da creche pra buscá-lo. O coração bate mais feliz porque quando o Miguel ouve minha voz, sai correndo sorridente pra me abraçar e diz pra mim: "vamos pra casa, mamãe." Naquele momento, Miguel me resgata. Resgata do pior estresse que eu tenha tido no trabalho, me faz esquecer uma briga, uma preocupação qualquer. O olhar do meu filho tem o poder de tornar todo o resto pequeno, sem importância. 

Quando estamos deitados juntos, na hora de dormir, algumas vezes ele pede: "Me dá a mão, mamãe." Nesse instante eu me sinto a mulher mais importante do mundo. O ser mais desejado, mais amado do planeta. Mesmo que ele cresça e não precise mais da minha mão tão frequentemente, a lembrança desses dias vai alimentar minha alma pra sempre. Quando Miguel está com sono e olha pra mim com seus olhinhos rasgados e diz: "Qué colinho, mamãe..." Como posso dizer não? O cheirinho do corpo dele, o contato com sua pele macia, me faz pensar que o mundo é bom e, por um instante, esqueço as maldades da vida. Quando Miguel acorda e, ao invés de pedir pão e suco como café da manhã, diz que quer "papá" e vai batendo na geladeira onde guardamos a comida, pede macarrão, ou feijão com arroz e carninha, ele me ensina que devemos acordar assim todos os dias: com fome de viver. Miguel tem fome. Meu filho não pára um minuto e come bem. Acordar com fome é maravilhoso! E ver meu filho comendo também. Enfim, o lado bom de ser mãe é que, mesmo tendo milhares de momentos cansativos, dolorosos, preocupantes, mesmo sem dormir, sem a quantidade de sexo que desejamos, sem a liberdade que tínhamos em nossa vida antiga, somos felizes. O lado bom de ser mãe é que a gente passa por tudo isso e, se pudesse voltar atrás, passaria por tudo de novo. É uma experiência da qual não abriria mão. 

Nem todas as mulheres escolhem viver isso. Tudo bem. Não acredito que precisamos de filhos pra sermos felizes. Miguel não me completa, Miguel não me realiza como mulher. Não acredito nisso. Ele é apenas uma parte da minha vida. Não sou mais feliz hoje que era antes de tê-lo. Sou feliz de um jeito novo, um jeito único. Apenas a escolha de ser mãe transformou minha vida, muito. Mas preciso deixar claro que ter filhos é uma estrada sem volta.  Uma estrada que começa com esse olho brilhando que está na cara da Renata, muito antes até de se engravidar. Começa quando a idéia não sai da cabeça da gente. É estrada sem fim, que não tem mão dupla, estrada só de ida. Mas, de verdade? Nem precisa de mão pra voltar. Quando o filho nasce a gente sente, assim, simplesmente, sente, que não tem outro caminho. Só nos resta aproveitar a paisagem e, pode acreditar, Renata, eu não mentiria pra você: é gostoso. Vai por mim. 

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Instinto de pai e mãe




Em um desses raros dias em que eu e o namorado estávamos deitados assistindo TV enquanto o Miguel dormia à tarde, estava passando a reprise de uma cena dessa novela "A Vida da Gente". Era a cena em que as irmãs (não sei o nome delas na trama) interpretadas pela Marjorie Estiano e Fernanda Vasconcelos, sofrem um acidente de carro e caem em um rio ou lago, não sei direito. No carro também estava a filhinha de uma delas, presa na cadeirinha no banco de trás.

A cena é bem forte, principalmente porque uma das irmãs fica desacordada e a irmã que estava ao volante fica tentando desesperadamente acordar e soltar a irmã que está no banco do carona enquanto o carro afunda e vai ficando submerso. Ela tenta muito, o tempo vai passando e eu fiquei angustiada porque só conseguia pensar no bebê no banco traseiro. Eu estava pensando que se fosse eu no carro com o Miguel na cadeirinha e estivesse com alguém desacordado ao meu lado, eu não pensaria duas vezes: arrancaria meu filho dali de qualquer jeito, ele seria meu primeiro pensamento. 

Eu não verbalizei isso, estava só pensando quando o namorado virou-se pra mim e perguntou: "Se uma situação dessas acontecer com a gente e eu ficar desacordado, você sabe o que fazer, não é?" Fiquei olhando pra ele, sabendo que ele estava pensando o mesmo que eu, que o primeiro a ser salvo era nossa cria. Ele completou: "Não pense duas vezes em salvar o Miguel. Ele tem que sair primeiro do carro, entendeu?" E eu falei pra ele que sim e que gostaria que ele fizesse o mesmo. Primeiro o Miguel. Sempre ele. 

Esse instinto animal de proteger a cria é incrível. É muito forte e toma conta da gente de um jeito indescritível. Meu filho é e sempre será filho de uma leoa, pronta pra defendê-lo de tudo o que eu puder. Mas existem tantas coisas das quais não poderei protegê-lo... Ele não estará debaixo da minha asa em todos os momentos, é fato. Espero que ele saiba se defender, espero estar criando o Miguel de um jeito que o deixe forte o suficiente pra gritar, pedir ajuda, forte suficiente pra decidir voltar se, por acaso,  escolher algum caminho errado. Luto todos os dias pra transformar meu menino em um cara legal porque sei que meu instinto materno não vai protegê-lo de todas as dificuldades da vida.

Que os anjos de guarda estejam com meu bebê, que Nossa Senhora o cubra com seu manto azul e que São Jorge acalme meu coração porque tenho um medo danado de alguma coisa acontecer com meu filho. 






quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Filhos e sexo

Sempre me disseram que casamento acaba com a vida sexual do casal. Não acho que seja verdade. Falam muito da rotina que se tem quando se é casado, que a graça do sexo vai embora com essa rotina e eu não acredito nisso. Ao contrário, acho que a vida de casada é maravilhosa até sexualmente falando justamente porque a gente tem liberdade pra transar a hora que quiser e onde quiser. A rotina - de que tantos falam mal - eu acho maravilhosa. Adoro uma rotina, uma intimidade. E a intimidade que a rotina dentro de um casamento traz também me agrada. Intimidade pra dizer que não quer transar naquele momento. Intimidade pra dizer que quer, desesperadamente, transar em um outro momento que não seja tão "apropriado" sem parecer louca. Enfim, pode parecer incoerente, mas a rotina faz ficar legal quebrá-la de vez em quando. O fato, voltando ao assunto principal, é que sou casada há quase 7 anos e casamento nunca me deixou "na seca", se é que estou me fazendo entender.

Agora quando o assunto é filhos... Ai, meu Deus. Deviam ter me dito que quem atrapalha a vida sexual de um casal não é a rotina de viver sob o mesmo teto. Ela só leva a fama. Deviam ter me dito que o que dificulta e muito é o nascimento do filhote. Chega a ser engraçado que quando a gente põe na cabeça que quer ter um filho a gente comece a transar que nem louco. Eu já deveria ter imaginado que "dia de muito é véspera de pouco" já dizia minha avozinha. 

Em um primeiro momento, quando o filho nasce todas as forças e foco estão voltados para o bebê. Ele suga todas as nossas energias, tanto que a gente fica mesmo um tempo sem pensar em sexo e é verdade também que se a gente pensa, o cansaço faz a gente esquecer o pensamento rapidinho. Os três primeiros meses da vida do casal pós nascimento é exaustivo.

Pombas, mas passado esse período inicial em que o sexo dá uma rariada mesmo, a gente começa a ter pensamentos muito mais frequentes de querer transar, ninguém é ferro e mesmo que você ainda esteja acima do peso, se sentindo horrorosa e descabelada, sexo é bom e todo mundo gosta e faz uma falta danada... Só que aí é que entra a adaptação suprema à uma nova e inusitada rotina: assim como você não faz mais NADA na hora que dá vontade, você também não transa mais na hora que dá vontade. Só que essa falta de espontaneidade afeta muito a vida sexual do casal. Por exemplo, se você sente fome e não pode comer porque seu filho está chorando e quer mamar, você fica com fome mas vai comer mais tarde - sabe-se lá que horas, mas vai comer. Se você quer tomar banho e na hora que a água está quentinha o bebê faz coco e você precisa trocar a fralda, ok, o banho fica adiado pra mais tarde um pouquinho. Ou mais tarde um poucão. Mas quando você for tomar banho de novo, é só abrir o chuveiro e esperar a água esquentar novamente. Está com vontade de ir ao cinema e o filho ficou doente? Tudo bem, quando puder ir ao cinema, finalmente, a vontade vai ser igual. Com sexo, meu amor, a estória é bem diferente. Transa adiada é transa perdida.

Sempre achei que o legal do sexo é quando, de repente, os dois estão de bobeira e bate aquela vontade e a gente começa a tirar a roupa e rola. Depois que se tem filhos, muitas vezes, quer dizer, a maior parte das vezes, bate essa vontade de repente e o que a gente faz com ela? Segura a vontade porque não é o momento. Miguel está acordado. Ou, pior, rola a vontade, a criança está dormindo e o que acontece? Quando você acha que está bom demais, ouve um choro e a coisa é interrompida alí, no meio do caminho. Senhor... Sei que não é o caso de chamá-Lo nessa hora, mas tenha piedade de mim... Please... E pode acontecer o contrário também, a criança está dormindo e os dois sabem que tem que ser naquela hora, só que tem vezes que a gente não está a fim NAQUELA hora, só que é a única hora que dá e a gente se sente na obrigação de aproveitar, porque se não for naquele momento, sabe-se lá quando será. Isso não é legal. Não é legal também aprender a transar com pressa e chegar lá rapidinho porque a gente fica pensando que a qualquer momento o filho pode acordar e acabar com a brincadeira, então, sendo assim, é melhor a gente ir direto ao ponto. Que pecado. Aprender a transar quando não se está muito a fim mas pra garantir, porque não sabemos o dia de amanhã, definitivamente, não é digno. Sexo merece dignidade. Merece ser espontâneo, cheio de vontade, de tesão. E transar pra garantir tira qualquer dignidade do ato. Enfim, mas é isso que temos pra hoje e é assim que vamos levando.

Eu ainda tenho uma sorte de ter um marido louco por mim - amém - e pra ele não tem dia de sol ou tempo chuvoso que atrapalhe. O namorado chega junto em qualquer hora, mesmo sem clima, sem ser espontâneo, o cara está sempre disposto a parar tudo o que estiver fazendo pra atender a qualquer pedido meu, sexual então, nem se fale. Mas, mesmo assim, quero deixar claro aqui para os mais desavisados que casamento não atrapalha a vida sexual de ninguém, porém não posso dizer o mesmo dos filhos. Filho atrapalha, sim. E muito. É preciso muito amor, malabarismo, bom humor e certa dose de loucura pra dar conta da falta que o sexo descompromissado e livre faz na vida da gente. Mas tenho esperanças de que isso vai melhorar. A certeza de que o namorado me ama mesmo assim, e acima disso tudo, esquenta muito o meu coração. Melhor é rir da situação e bola pra frente. Na altura do campeonato, a esperança de que isso passa é a única coisa da qual não posso me dar o luxo de abrir mão.

sábado, 24 de dezembro de 2011

E lá vem a escola




Com o amigo Lucas


Foto hilária com a fofa da Manuela


A turminha toda


Na bagunça


Com tia Suzane


Com tia Miriam


Com as meninas


Com Rafael


Com o amigo xará


Com Rafael, de novo.


A vida passa rápido mesmo. Um dia a gente acorda e se olha no espelho e já vê rugas na cara e se pergunta como dormiu nova e acordou velha. Outro dia meu filho estava nascendo e ano que vem ele já deixará a creche e vai pra escola. Pois é. Miguel ano que vem vai pro Jardim I e eu e o namorado achamos melhor já colocá-lo em uma escola, na escola - podem rir que eu deixo, sei que sou doidinha mesmo - na qual eu já sabia que Miguel estudaria desde que soube que estava grávida. Acho que professor tem dessas loucuras, essa preocupação contínua de dar pro filho o que de melhor ele possa pagar pra que tenha uma educação formal excelente.

Enfim, o fato é que vai ser uma fase totalmente nova pra mim e pro Miguel. Minha vida vai ficar um pouco mais louca. A creche é período integral e a escola é só meio período e isso vai me dar trabalho e vai dar trabalho pros outros. Pela manhã, minha mãe e a Taninha vão ter que se virar em casa com ele. Eu vou ter que sair do trabalho na hora de buscá-lo da escola e terei que voltar ao trabalho porque não posso sair todos os dias às 17:30. Para o Miguel acho que as mudanças serão muito maiores. Novos amigos, novos professores, novo ambiente. Miguel deixa um lugar que é praticamente o quintal da casa dele, onde ele conhece todos os cantinhos, todas as cores, todas as regras e tem uma rotina bem definida, pra se aventurar em um lugar desconhecido com pessoas desconhecidas.

Na creche, Miguel é rei. Miguel tem um espírito de liderança que já posso observar e ao mesmo tempo que isso é bom, também me preocupa. Vejo os amigos fazendo suas vontades, vejo meu filho sendo bem malvadinho, às vezes. Só tem uma criança que de vez em quando se cansa da tirania do meu filho e resolve dar um basta com uns sopapos: o Lucas. E o Miguel gosta dele de montão. Brigam, se estapeiam, mas Miguel fala muito do Lucas, sente sua falta e sei que o Lucas fala muito do Miguel também. 

As tias Suzane e Miriam são um capítulo à parte. Tratam do meu filho como rei mesmo, fazem as vontades, aturam birra, cara feia, gripe, tosse. São como mães pra ele. Conhecem meu filho como eu o conheço. Ou será que o conhecem até melhor? De novo tenho que dizer, não tenho ciúme delas não... Sou muito agradecida por cada sorriso, por todas as vezes que me contaram o que aconteceu durante o dia, por todas as vezes que riam comigo de alguma gracinha que ele tenha feito ou travessura que tenha aprontado. Sou muito grata a Deus por ter colocado Suzane e Miriam na vida da minha delícia porque não é todo mundo que tem a vocação que elas têm pra cuidar desses bebês lindos. Algumas pessoas têm um brilho no olho quando estão rodeadas de crianças e essas duas são assim. Cansadas, com problemas, humanas como todos nós, estão sempre com um ou outro bebê no colo, socorrendo, dando atenção. Como fico feliz quando ouço a Suzane falar pro Miguel na hora de ir pra casa: "Vem me dar um beijo, filho. Te amo." Como diz minha mãe, muito sabiamente, "Quem beija meu filho, minha boca adoça". Portanto, Suzane e Miriam contribuiram e muito pra que minha vida fosse mais doce durante esse ano que passou.

Quando penso em todas as mudanças que estão acontecendo na minha vida e na do meu filho e tão rápido, vejo que tudo passa em um  instante mesmo e olho pro Guel e tenho a certeza de que vou sentir saudade de olhar pra essa mãozinha pequena, de ouvir ele chamando "mamãe" com a voz gostosa de bebê, de receber o olhar dele e ouví-lo dizer "deita aqui comigo, mamãe..." Nessa hora peço muito a Deus que ilumine minha vida, a vida do meu filho. Que o Miguel possa encontrar na escola amiguinhos bacanas e professores melhores ainda e que abençoe a vida da tia Suzane e da tia Miriam. Elas estarão sempre no meu coração por todo amor que dedicaram ao Miguel e farão parte de muito boas lembranças de uma época linda da vida do meu filho.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Mulher Maravilha



Quando o Miguel nasceu, eu, idiotamente - e isso eu só consigo enxergar hoje, 2 anos e 7 meses depois - imaginei que a capa da mulher maravilha estava nascendo também nas minhas costas. Só que passado esse tempo, vejo que, pra minha decepção, o fato de ser mãe não me torna uma super mulher e, pra piorar, me coloca de cara com todas as minhas fraquezas e falhas o tempo todo.

Quando o filho nasce queremos ser a melhor pessoa do mundo, queremos ter paciência, queremos não gritar, não chorar de desespero quando não sabemos mais o que fazer, queremos ter as soluções, queremos ser a solução. Acho que é por isso que me sinto tão frustrada e triste comigo mesma quando perco a paciência, quando me descabelo nas ocasiões em que não dou conta de tudo, porque, na minha cabeça louca, ao ser "elevada" à categoria de mãe, receberia junto com essa "promoção" vários superpoderes. Achei que seria onipresente, onipotente e onisciente. E a pergunta agora é: onde estão os meus superpoderes? Na falta desses poderes, vejo que minha condição humana impõe que eu trabalhe em cima das minhas falhas e isso é difícil pra caramba. 

Por um lado, me sinto levada ao extremo de saber o quanto preciso melhorar e crescer pra ser uma mãe bacana pro Miguel. Pro outro, me sinto grata à Deus pela chance de aprender, mesmo que de modo intensivo, a lidar comigo mesma. Por mais cansada que me sinta e estressada por ter imaginado que eu seria uma mãe que nunca levantaria a voz, que seria sempre tranquila e disciplinadora e ver que não é bem assim, sei que precisava passar por tudo isso e agradeço mesmo a Deus por essa oportunidade. O Miguel é o caminho mais louco que eu escolhi pra ver o que posso melhorar da forma mais clara possível. Quero muito melhorar, quero muito dar conta de tudo, mas preciso aceitar que não sou a mulher maravilha e que o meu filho tem uma mãe humana e que faz besteiras e se descontrola também.

Engraçado que toda essa estória de maternidade me fez ver que eu não sou uma heroína, mas também me fez olhar pra trás e ver o tamanho do valor da minha mãe. Quando lembro dos seus gritos, da sua luta pra cuidar do trabalho dela, da casa, do marido, de nós, vejo o quanto minha mãe foi guerreira. Ela é minha mulher maravilha, mesmo que tenha gritado comigo. Mesmo que tenha me ameaçado de morte. Mesmo que tenha chorado por meus erros. Como eu admiro essa minha mãe justamente por ela ser tão real.

Talvez demore a chegar o dia em que o Miguel vá entender que, não, eu não sou a mulher perfeita, o herói infalível que os filhos sempre imaginam que os pais sejam. Mas tenho certeza que no final das contas, o Miguel também vai entender que todos os super heróis têm suas fraquezas e que isso dá toda a graça pra suas estórias. Não existe nenhum super herói sem ponto fraco. Imagina eu, que não ganhei a capa da mulher maravilha quando ele nasceu... Um dia, queira Deus e isso me conforta muito, meu filho será pai, e vai entender toda a minha luta diária pra ser uma mãe legal. Vai olhar pra trás e enxergar todo o meu esforço pra ser a melhor mãe que minhas limitações permitem que eu seja e - tomara meu bom Deus - vai entender que todos os meus erros foram cometidos com a enorme vontade de acertar. Talvez nesse dia eu me transforme na sua mulher maravilha, do mesmo modo que minha mãe é a minha.