quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

O valor de um abraço



Felizes aqueles que podem abraçar os que amam. Quanto de amor cabe num abraço? 

Hoje, véspera de Natal, desejo que todos possam abraçar sua família, seus amigos. Desejo que todos possam dar valor às pessoas que estão por perto, porque sempre há alguém que merece um abraço carinhoso, um abraço de amor, um abraço de felicidade, um abraço sincero. 

Não tenho perto de mim todos aqueles que gostaria de abraçar. Uns porque já estão em outro plano e outros por não estarem perto geograficamente. Mas com certeza abraçarei todos que estiverem perto de mim. E abraçarei os que estão longe em pensamento. Porque hoje é noite de Natal!! É noite de felicidade!

Feliz Natal a todos!

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Quem meu filho beija, minha boca adoça



A vida está corrida e o trabalho não dá trégua nessa época, mas não posso deixar de registrar algo de muito bom que aconteceu esse ano.

Quando Miguel começou seu Jardim III confesso que fiquei apreensiva ao saber que a professora que iniciaria o trabalho com a turma seria substituída em junho pela professora que voltaria de licença maternidade. Achei que meu filho já estaria acostumado com uma e que teria que se adaptar novamente ao jeito da professora que retornava. Enfim, preocupações bobas de mãe porque a gente sabe que os filhos se adaptam rapidamente às mudanças da vida e isso não seria um problema. Na verdade, o que eu achei que seria algo "chato" tornou-se um presente de Deus. 

Todos sabemos que existem afinidades entre as pessoas e que, muitas vezes sem sabermos explicar, nos identificamos ou não imediatamente com alguém. E acredito que isso tenha acontecido com meu filho. Ele não se conectou com a professora que ficou com a turma até junho, não criou vínculos, simplesmente não aconteceu. E isso, é claro, refletiu em sua vontade de estar na escola. Eu, como professora, sei o quanto é importante buscarmos caminhos para chegar em cada aluno, para conseguirmos uma ligação qualquer, um atalho que seja, pra alcançarmos um modo de ensinar. Com 20 alunos em uma sala, a única coisa que é certa e que todo professor deveria saber, é que serão 20 alunos totalmente diferentes um do outro e que o modo de aproximação usado com um, não necessariamente, dará certo com outro. É preciso, por mais experiência que se tenha e por mais anos dentro de sala de aula que se carregue no currículo, saber se reinventar e acompanhar mudanças. Enfim, algo não estava dando certo com o Miguel no primeiro semestre do ano.

Enfim, junho chegou e com ele chegou a Carla. Até acredito que meu filho tenha gostado dela de cara, mas acredito mais firmemente que a Carla soube construir um relacionamento de confiança total com ele. Pouco a pouco, Miguel aceitou a mão que ela vinha estendendo a ele. E não soltou mais. Carla soube ler meu filho, soube entendê-lo e, portanto, soube tirar do Miguel o melhor. Miguel parou de reclamar que tinha que ir pra escola - coisa que nunca tinha acontecido nos 2 anos anteriores e que vinha acontecendo com frequência nesse ano, e seu desempenho deu um salto. Os desenhos, antes mal feitos e rabiscados, viraram formas facilmente identificáveis, cheias de cor e capricho. Miguel retomou a confiança que estava abalada. E, apesar de se cobrar muito e de não querer errar, respondeu aos estímulos com fé em si mesmo. Carla foi a responsável direta pela recuperação da auto-estima do meu filho, justo ele que sempre foi um menino tão seguro e firme, precisou de um resgate. E, graças a Deus, o resgate foi feito por esse anjo em forma de professora doce e carinhosa. O resgate veio através da Carla. 

Hoje, fim do ano letivo, só posso e devo agradecer. Primeiro à Deus por sempre me mostrar que por mais que as coisas pareçam esquisitas a princípio, tudo acontece por uma razão e, nesse caso, Deus sabia que a troca de professor seria uma benção pra mim e pro meu filho. Segundo, devo agradecer à Carla, por ter exercido sua função tão lindamente, tão cheia de entrega. Por não ter tido preguiça de tentar um caminho novo com o Miguel, por não ter achado, simplesmente, que meu filho não se interessava e ponto. Quando seria mais fácil achar que ele não "estava nem aí pra escola", ela resolveu percorrer uma estrada nova de mãos dadas com o Miguel. Quando seria mais simples assumir que meu filho não era caprichoso, ela optou por tentar conhecê-lo e buscar alternativas. Quando seria mais fácil dizer que ele não estava se desenvolvendo como os demais alunos, ela arregaçou as mangas e trabalhou. 

Por tudo isso é que posso afirmar que essa professora, talvez não tão experiente nessa longa estrada do magistério, terá um futuro brilhante. Ela sabe que cada aluno é um aluno. E porque ela é incansável na tarefa de ajudar a cada um deles, com todas as suas nuances e diferenças, em todas as suas sutilezas e esquisitices. Posso dizer que a Carla enxergou o meu filho. E, a partir de então, fez com que ele a olhasse nos olhos e confiasse nela. Benção pura. Que maravilha saber que existem muitas professoras como você! Faz muito bem ao coração saber que existem muitas "Carlas" espalhadas por aí. 

À você Carla, meu mais sincero agradecimento. Saiba que estará pra sempre no meu coração. 



quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Imagina quando tiver 16...






Sempre tive como objetivo criar meu filho pro mundo. Sempre quis que se virasse bem sem mim e que fosse feliz independente da minha presença. Nunca imaginei ter um filho agarrado comigo, que fosse minha sombra, sabe? Eu mesma sempre fui muito independente, adorava e adoro rua, festa, comemoração. Miguel é muito parecido comigo, apenas é muito mais carinhoso que eu. Definitivamente, uma edição de riso aberto como o meu melhorada.

Há 2 semanas ele foi pra Salvador com a avó, tia e primos. E, algumas vezes, supreendo-me observando como ele é desprendido e safo. Miguel viajou em uma sexta feira de manhã bem cedo e eu vinha falando com ele diariamente mas no domingo eu disse a ele que estava morrendo de saudade. Sabe o que ele me respondeu?

- Mãe, você sabe que depois desse dia (não sei porque ele não fala "amanhã") já é dia de eu voltar né?

Nossa. Tão sutil esse meu filho. Disse, em outras palavras, que eu não precisava ficar com tanta saudade uma vez que logo estaria de volta. Então, tá. Na segunda-feira, finalmente de volta, estava agarradinha com ele e cobrindo meu filho de beijos quando mais uma vez disse a ele:

- Poxa, filho, eu estava com TAAAANTA saudade de você!! 
E Miguel respondeu:
- Tá bom, tá bom, mãe. Mas, olha, eu já estou aqui! Pertinho de você!

Tradução: pára de frescura que você não precisa mais falar desse assunto de saudade porque estou aqui abraçado a você, ok?

Ok. Falar o quê?

O final de semana seguinte à sua viagem à Bahia, foi o final de semana passado. Já estava pensando em um cineminha com ele e tínhamos uma festinha no domingo e ele sabia dos nossos planos. Só que Hugo foi com ele na casa da tia pra consertar alguma coisa por lá e voltou sozinho. Miguel não quis voltar pra casa. Ficou com os primos, brincando com os gatos. (Miguel ama bichos e eu não os tenho. Nem terei.) À noite, voltou pra casa e eu pensando que ele fosse ficar, enganei-me redondamente. Na verdade, o maroto veio apenas pedir pra dormir na casa da tia pra no domingo ir à praia com eles. Gabriela disse que estava tudo certo, dando o aval pra que ele passasse o resto do fim de semana com ela. E, assim, meu filho correu pro quarto pra gente preparar sua bolsa e ... tchau. 

Dois finais de semana seguidos sem filho. Não me entendam mal, não estou reclamando não. Foi até muito legal! Mas... Isso não era pra estar acontecendo um pouquinho mais tarde? Coloquei no mundo um cara do mundo mesmo! Imagina esse moleque com 16 anos? Vou ter que acorrentar ao pé da mesa. 

Ontem foi a festa de formatura da Rafa. Crianças com 11 anos na festa. Quase nenhuma criança da idade dele. Você pensa que ele ficou perto de mim, sentadinho, quietinho por não estar ambientado? Ha ha ha. Miguel só vinha à mesa pra comer, porque disso meu filho nunca esquece. É bom de boca o danadinho. Miguel brincava no meio das crianças de 11 anos, com a maior desenvoltura. Lá pela meia noite eu já estava caindo pelas tabelas e falei pra ele que precisava ir pra casa. Aí ele me perguntou:

- Minha Dida vai ficar? 

Respondi que sim, que ela ainda ficaria mais um pouco. Pronto, seu "problema" estava resolvido:

- Então vai pra casa descansar, mãe. Mas me deixa aqui com ela, pode ir embora com meu pai. Eu estou numa festa! Quero aproveitar! Vai lá... Não fica andando atrás de mim, não, tá, gostosinha? Pode ir pra casa sossegada!

Como é? Ele me disse pra "não ficar andando atrás dele?" Foi isso mesmo? Sei lá. Nem sei.

O que eu sei é que só recebo elogios a respeito do comportamento do meu filho quando não está comigo. Todos dizem que é educado e que obedece. A tia diz que ele não dá trabalho algum e que é uma criança que topa tudo e não tem frescura. Fico orgulhosa e feliz por ver que meu filho é bem feliz longe de mim. Bom ver que ele aproveita a vida e os momentos que ela vem lhe proporcionando. 

Confesso que talvez não estivesse preparada pra um filho tão independente quanto ele. Mas acho que é melhor assim. Deus me presenteou com o filho perfeito pra mim. Pra que reclamar? Deixa eu pensar nos 16 anos quando eles chegarem, né? 





terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Medo de ser Mãe






Eu morria de medo de ser mãe. E acho que uma das razões do meu medo era o fato de eu ter uma vida tão boa. Também por ter levado essa vida tão boa por tanto tempo. Aí, qualquer coisa que ameaçasse a tranquilidade que eu tinha me causava pavor. 

Eu não era uma menina que gostava de brincar de bonecas, nem de casinha. Minha irmã, sim, adorava ter várias bonecas, vários bebês. Eu achava chato ter bonecas e nem ligava pras que eu tinha. Meus pedidos de brinquedo eram sempre algo com que eu pudesse produzir alguma coisa: eu tive máquina de costura, forno elétrico onde adorava fazer bolos, espremedor de laranja, uma polaroid, uma máquina de escrever, enfim... Dificilmente eu pedia uma boneca de presente e não me lembro de ter pedido um conjunto de panelinhas daqueles que quase toda menina gostava de ter. Por isso, ser mãe era uma ideia meio distante e algo até sobre o qual eu não tinha pensado muito.

Como demorei a encontrar um cara que me desse segurança pra me arriscar nessa aventura, deixei o assunto arquivado. Só que quando conheci o Namorado e tudo fluia tão bem, tão sem drama e eu me sentia ao lado de alguém que, além de namorado, era meu amigo, meu parceiro de todas as horas e pra qualquer loucura e alguém que estaria ao lado na dificuldade de educar uma criança, a ideía começou a me rondar. E o medo também. E alguns podem pensar: "meu Deus, de que tanto essa mulher tinha medo?" 

Eram vários medos. Vários. A terapia de ajudou muito nisso. Mas vencer os medos era um processo só meu e não foi fácil. O primeiro e maior medo era o de perder minha liberdade, de perder meu direito de ir e vir quando tivesse vontade, o medo de não poder fazer planos que dependessem só de mim, de ter que contar com uma variável que fica doente, tem seu próprio querer, que depende de você, medo de me sentir presa. O segundo medo era de que, por causa de todos os medos citados acima, eu sofresse. E de que eu não conseguisse mais ser feliz por ter optado por ser mãe sem ter vocação pra tanto. A última coisa que eu queria no mundo era colocar a culpa por minha infelicidade e insatisfação em um filho, colocar a culpa em quem não tinha a menor culpa por uma escolha que era só minha. E, talvez, o maior e mais amedrontador: medo de não ser uma boa mãe. Medo de não conseguir dar ao meu filho o que ele precisa, de não ser capaz, de ser incompetente nessa coisa tão grandiosa que é a maternidade. Medo de abraçar o projeto que seria o maior e mais importante da minha existência sem ter os requisitos pra ter sucesso na empreitada. 

Engraçado é quando eu penso que a razão que me fez decidir querer ser mãe foi também um medo: o medo de o tempo passar e eu deixar tão pra depois que não fosse mais possível, caso eu mudasse de ideia tarde demais. Foi o medo de me arrepender da opção de não ser mãe que me fez vencer todos os outros medos. Na época, várias pessoas acompanharam minha dúvida. Uns cobravam uma decisão de minha parte de forma mais enfática. Outros confiavam tanto na sua própria experiência de maternidade que achavam que seria ótimo que eu vivesse o mesmo. E ainda havia os que também viviam seus próprios dilemas com relação ao assunto e se mostravam reticentes. Hoje, vejo que a maior parte acreditava em mim mais que eu mesma. Eles viam algo em mim que eu não conseguia entender ou enxergar.

A verdade é que com o Miguel nasceu uma Paula que eu não tinha a mais vaga noção que existia. A Paula mãe. Uma mulher que não abre mão do que quer e do que a faz feliz, mas que consegue colocar outra pessoa na frente de seu querer. Uma Paula capaz de tudo pra ver o filho bem, que viu um amor louco crescer no peito dia após dia, noite após noite. Ninguém me preparou pra algo tão difícil. Ninguém me disse que eu chegaria ao meu limite de cansaço, de desespero, muitas vezes de culpa. E que morreria de tanto amor por uma coisinha gorducha que mudou minha vida, que deixou meus dias de cabeça pra baixo, que bagunçou meus planos. Que me mostrou que tudo que eu temia, de fato, acontece, mas que você arranja um jeito de contornar, que você encontra um caminho, uma alternativa. Juntos. 

Agora eu vejo o porquê de todas as pessoas falarem tão pouco sobre as dificuldades da maternidade. Entendo, de todo coração. É porque, no fim das contas, assim como o meu medo de não poder ser mãe venceu todos os outros muitos medos que eu tinha, o lado bom de ser mãe sempre vence e sempre vencerá os muitos momentos difíceis da maternidade. O que fica, quando colocamos na balança, é a lembrança de um sorriso desdentado. É a mão gordinha apertando seu peito enquanto mama olhando pra você. É um par de pernas roliças aprendendo a andar, são as palavrinhas iniciais que  arrancam suas melhores gargalhadas quando estão aprendendo a falar, é o andar de mãos dadas indo pra escola, é o abraço gostoso e apertado que você ganha quando chega do trabalho, é o beijo de boa noite. O que fica é muito maior e melhor que todas as coisas ruins e difíceis. E é por isso que outras mães não falam tanto de seus medos e dores. Hoje eu entendo. E posso dizer que venci o medo de ser mãe. E digo também que não trocaria essa experiência e o amor do meu Miguel por nada, absolutamente nada, nesse mundo.









segunda-feira, 24 de novembro de 2014

A mulher do sinal

Ando pensando muito ultimamente no porquê de certas pessoas terem sempre um pensamento negativo com relação à quase tudo, estarem sempre com um olhar endurecido pra enxergar situações e pessoas e estarem sempre com uma certa aspereza no falar ou na escolha de suas palavras. Eu não sou dessas que gostam de florear a vida, eu procuro mesmo enxergar as coisas como elas são. Já disse aqui que um copo pela metade é pra mim um copo pela metade. Não é um copo vazio, mas também não é um copo cheio. Meu esforço vai sempre pra como fazer o copo que está pela metade encher. Aí mora meu otimismo: em acreditar que minhas ações e estratégias pra encher o copo darão super certo. 

Por ser assim é que me incomodam pessoas que não sabem rir de situações, tudo sempre é tão levado à sério, tão sem brincadeira e cor. Pra citar um exemplo, sábado foi jogo do VASCO no maracanã. Jogo que se o Vasco empatasse já garantiria sua volta pra série A. O time jogou super mal e não passou do empate mesmo. Mas, pra mim, o objetivo foi alcançado e eu me sentia com vontade de festejar. Só que a maioria das pessoas só falava que o time jogou mal, que era uma vergonha não ter ganho o jogo com o Maraca lotado e que festejar a volta pra série A também era vexatório. Bom, pra mim, esse argumento é a mesma coisa que não comemorar com um filho que repetiu de ano na escola o fato de, agora, enfim, ele ter passado. Esse foi um exemplo bobo, estou aqui falando do meu time de futebol mas poderia estar falando de qualquer outra coisa. Fato é que a nuvem negra que mora sobre a cabeça de alguns seres é tão intensa que não permite ver o bom em nada. Acho que críticas construtivas tem lugar e momento pra serem feitas, até porque acredito que uma crítica fora de hora não leva ninguém a lugar algum. 

Continuei pensando nessas posturas mais duras que algumas pessoas adotam em relação à vida, sempre tendo uma crítica, sempre fazendo questão de pontuar o negativo de uma situação. E, nesse caso, esse comportamento é escolha. Você pode escolher valorizar o bom, valorizar a vitória, a conquista. Independente do que haja de errado em qualquer situação, sempre há alguma coisa bacana. Acho importante ter a consciência de que o que não deu certo, o que está fraco ou ruim, merece atenção, não podemos ignorar. São essas coisas que nos farão crescer ou buscar o acerto. Mas também não podemos escolher olhar só o erro, só o fracasso. 

Então, quando estava indo pra casa do meu primo no sábado passado, parei em um sinal de trânsito. Estava um calor danado e havia vários carros parados nesse sinal. Uma senhora estava distribuindo panfletos publicitários e ela andava com certa dificuldade debaixo daquele sol quente porque estava bem acima do peso. Além disso, visivelmente tinha problemas no joelho o que tornava sua locomoção mais dolorida. Ela passou pelos três carros na minha frente e nenhum deles abriu o vidro para receber o panfleto. E eu falei pra minha mãe, Namorado e Miguel que estavam no carro comigo, enquanto ela vinha em minha direção:

- Vou abrir o vidro pra ela, vou ajudá-la em seu trabalho. Afinal, não deve ser fácil trabalhar com um sol desses na cabeça.

Assim, abri o vidro e a recebi com um sorriso. Ela me entregou o panfleto e me disse devolvendo-me um sorriso maior ainda:

- Muito obrigada! Que você tenha uma tarde maravilhosa e que sua família seja abençoada. Um feliz Natal pra vocês e que Jesus os acompanhe.

Agradeci por suas palavras tão cheias de amor, desejei o mesmo a ela e fiquei pensando naquela atitude enquanto observava sua caminhada na direção dos outros carros através do retrovisor do meu carro. Três carros atrás de mim, alguém também abriu a janela pra ela e eu vi que ela também desejou as mesmas coisas pra pessoa que abriu a janela pra receber aquele panfleto. 

Cheguei a conclusão de que simplesmente é a atitude que adotamos perante a vida que nos define, que define o que somos, o que queremos ser, o que queremos pro nosso semelhante. Aquela mulher, por estar trabalhando debaixo de sol quente e com dificuldade pra andar, poderia entregar 5 panfletos iguais pra cada carro que abrisse a janela pra ela, como ja vi acontecer um sem número de vezes. Ela poderia ter entregue o panfleto e não ter dito nada. Poderia ter seguido adiante sem nem olhar pra mim. Poderia caminhar com uma nuvem carregada sobre sua cabeça. Mas não. Ela não quis ter aquele olhar de quem lamenta. Ela não quis ter uma nuvem negra sobre si. Aquela mulher do sinal, cujo nome não sei mas de quem nunca me esquecerei, escolheu olhar nos meus olhos, escolheu sorrir e, mais que isso, escolheu tirar um tempo pra me desejar coisas boas de todo o seu coração. A mulher do sinal escolheu olhar pro que há de bom, escolheu valorizar o que há de positivo em cada situação, escolheu amar a vida que tem. E isso, meus amigos, é o que mais importa.  

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Esqueceram o Miguel



Minha família é uma bagunça muito gostosa. Parecemos um bando quando estamos juntos. Todo mundo fala ao mesmo tempo, todo mundo ri às gargalhadas, o volume é tão alto que parece que os vizinhos vão chamar a polícia a qualquer momento quando a macacada está toda reunida. Então, dá pra concluir que não somos muito normais mesmo, mas também não chegamos a ser loucos. Pode acreditar, nós não rasgamos dinheiro. Só que eu acho que na escola do meu filho eles devem achar que a gente deveria estar no hospício. Como se não bastasse a mãe da criança mandar merenda com data de validade vencida há mais de 1 mês pro filho lanchar, ontem a situação conseguiu ficar pior ainda.

Miguel sai da escola às 17:20. Às segundas-feiras, Itallo - o "Dido" querido do meu filho - vai buscá-lo. Terças e quartas são os meus dias. Quintas e sextas são os dias do Hugo. Em algumas ocasiões, de acordo com os compromissos de trabalho, fazemos um troca-troca, mas, em geral, é assim que a banda toca. Pois é. Ontem foi segunda. Dia do padrinho. Paula estava relaxada, sem correria em seu trabalho porque não precisava sair cedo, quando às 18h meu celular tocou.

Era a Simone ligando da escola. Assim que ela se identificou, olhei pro relógio e pensei que naquela hora Miguel estaria cansado de já estar em casa e que ela deveria estar me telefonando pra contar alguma coisa que tivesse ocorrido na escola. Sei lá, alguma besteira que Miguel tivesse feito ou pra falar que esqueceu a merendeira ou que rasgou o uniforme. Enfim, pensei várias coisas, menos o que ela me diria depois:

- Paula, é que Miguel está aqui na escola.

Oi??? Como assim? Olhei pro relógio meio abobadamente, eram 18h e ninguém tinha ido buscar meu filho?? Minha mente estava processando a informação em câmera lenta e eu tentava raciocinar se tinha confundido o dia da semana, se o Itallo tinha me dito que não poderia ir buscar o afilhado e eu, sabe-se lá porque razão, havia deletado a informação da memória. Estava tentando ainda me situar no espaço e tempo quando ouvi a voz do meu filho ao fundo conversando calmamente com alguém. E aí entendi que, sim, Miguel ainda estava na escola. Então consegui perguntar tentando parecer um pouco menos idiota:

- O Miguel está aí? Ainda?

Talvez a Simone tenha tido vontade de dizer: "Dããããããããããã!!!! Claro, né, Paula. Se estou ligando pra você..." Mas não foi isso o que ela fez, óbvio. Muito educadamente, respondeu:

- Sim, Paula. Ninguém veio buscá-lo.

Bom, consegui dizer que estava indo pra lá e peguei a chave do carro que estava em cima da minha mesa. Antes de sair correndo feito doida em direção ao meu carro, peguei também o celular e liguei pro Itallo. Ele atendeu e eu falei:

- Itallo, você me avisou que não iria buscar o Miguel hoje?

Itallo respondeu:

- Não, Paula... Desculpe... Eu esqueci completamente! Já estou aqui na esquina da escola. Perdi a noção do tempo e não lembrei mesmo... Mas já estou chegando!! Não precisa sair do trabalho!

Do jeito que o Itallo estava desarvorado, deu até pra sentir pena dele. Coitado. Tem coisas que é melhor que aconteça com o filho da gente que com o filho dos outros. 

Eu fiquei ansiosa pra falar com o Miguel, pra saber  como ele estava, se tinha se sentido mal por ter ficado esquecido na escola, se tinha chorado. Afinal, eu vejo essa situação acontecer com certa frequência aqui no trabalho. Os pais, às vezes, esquecem da hora de buscar os filhos mesmo. Só que a maior parte das crianças fica bem angustiada, sem saber o que aconteceu. Muitas choram, se desesperam, ficam inconsoláveis. Não foi o caso do Miguel. Pra minha surpresa, Miguel estava ótimo. Conforme eu ouvi pelo telefone, ficou na escola muito tranquilo, conversando. Ficou um pouco preocupado quando ele viu que não havia mais nenhuma criança pra ser apanhada pelos pais, só restava ele. E Simone disse que a única insatisfação que demonstrou foi dizer que não queria dormir na escola. Ai, meu Deus. ´Tadinho do meu filho. Deve ter pensado: "Eu não me importo de ficar aqui, ok. Eles podem até demorar mais umas 3 horas pra vir me buscar, mas, por favor, dormir aqui já é demais!"

Itallo falou que pediu desculpas ao Miguel, mas que foi recebido por ele com o mesmo sorriso de sempre, a mesma alegria.

A escola deve achar que Miguel nasceu na família errada. Ou achar, no mínimo, que somos todos surtados. A mãe manda merenda vencida pro filho. O padrinho esquece do menino na escola. E ele nem desesperado ficou. Miguel é mesmo um garoto bacana. E a verdade é que no meio dessa loucura toda, meu filho tem certeza de que é MUITO amado. E, no final das contas, é isso que vale.



terça-feira, 11 de novembro de 2014

Mãe Leoa



Já falei várias vezes, sem me orgulhar disso, que sou uma mãe que grita. E sei que gritar talvez seja o mesmo que bater, mas que atire a primeira pedra quem nunca perdeu a cabeça. Muitas vezes condenei quem bate em filho e hoje vejo que filho tira mesmo os pais do sério e minha vontade é dar uma palmada, sim, quando o Miguel está passando dos limites. Felizmente, como sempre fui péssima de briga desde a época da escola e como bater nos outros nunca foi meu forte, Miguel nunca levou uma porrada mas achei um caminho pra estabelecer limites com ele. 

Quando estou normal (entenda: dentro do que pode se chamar de sanidade), falo baixo e engrosso o tom de voz e já basta. Agora quando estou anormal (entenda: nível de estresse elevado ao máximo e criança tirando o restinho de paz que ainda lhe resta), algo se apodera da minha pessoa e grito ferozmente. Daí, outro dia, depois de passada uma crise animalesca da minha parte e de estar tudo em perfeita calma novamente, ouço meu filho falando pra prima:

- Sabe, Rafa, minha mãe é que nem um leão! Quando ela está "nervosinha" (estaria ouvindo direito Miguel usar um certo ar de deboche ao falar a palavra "nervosinha"??), ela começa a gritar que nem um leão!

Rafa desatou a rir quando Miguel começou imitar meus urros e volume quando estou "raivosa".

Gente, tem como manter a raiva com um garoto gaiato desses na minha vida? Ele sempre arranca de mim um sorriso, sempre me faz esquecer rápido as besteiras que faz, sempre me pede desculpas quando vê que fechei a cara e vem logo pra perto de mim cheio de "eu te amo, mamãe", "você é minha lindinha", "não fica com essa carinha de brava não..." e "minha gostosinha da minha vida!". 

Ah... Se sou mãe ou sou leão, não sei. A única coisa que tenho certeza nessa vida é que Miguel foi a mais bela benção que já recebi. Miguel é a maior responsabilidade a mim confiada por Deus e eu amo ser a mãe do Miguel. Meu filhote de leoa.  Meu leãozinho.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Natal de Novo



Amo Natal e sempre tive mil motivos pra isso. Minha família sempre reunida, muita alegria, bagunça, barulho. Desde que me entendo por gente tenho lembranças lindas de vários natais em família, todos muito animados e felizes. Aquela trabalheira toda pra arrumar a casa, fazer aquele monte de comidas gostosas e decorar tudo, comprar e ganhar presentes. Sempre um cheiro de felicidade no ar. Morávamos em um apartamento em Olaria e em muitas ocasiões a família dormia toda alí, um em cima do outro, sem conforto, espalhados pelo chão, mas ninguém ligava. Queríamos era ficar juntos e prolongar ao máximo aquela sensação de união.

Engraçado que depois que a gente se mudou pra Ilha, passamos um tempo sem ter mais Natais tão divertidos como aqueles passados em Olaria. Fomos morar em uma casa que é, pelo menos, 10 vezes maior que o apartamento e não ficávamos mais tão juntos quanto antes. Sempre tivemos Natal, nunca deixamos de celebrar essa data tão especial pra nós, mas o fato é que o Natal só voltou a ser parecido com o que era antes de nos mudarmos quando conheci o Hugo. A família dele e a minha se entenderam perfeitamente até porque eles também são barulhentos e bagunceiros e desde 2004 todos os Natais voltaram a ter um gosto doce porque ficamos reunidos. 

Miguel já demonstra que também adora essa farra natalina, adora o amigo-oculto, as brincadeiras, as risadas. Adora os enfeites e as luzes e, é claro, adora o Papai Noel. Ano passado nossa casa estava em obras e Miguel estava preocupadíssimo porque não colocamos nenhum enfeitinho de Natal. Ele reclamou que não montamos uma árvore e me perguntou como o Papai Noel iria entrar na casa dele pra deixar seu presente se nossa casa não estava arrumada pra esperá-lo. Expliquei pra ele que eu já tinha escrito pro velhinho contando que nossa casa estava em obras e que eu havia pedido pra ele não esquecer de nos visitar porque no próximo ano a casa estaria linda e enfeitada para recebê-lo. Interessante o Miguel ter feito essa colocação a respeito de preparar a casa pro Papai Noel porque, de certa forma, ao preparar nossa casa para o Natal estamos nos preparando também pra esse amor todo que invade o mês de dezembro, mês do aniversário de um dos homens mais admiráveis da história da humanidade. É como ter, a cada dezembro, a oportunidade de receber essa energia toda pra fazer com que ela perdure por todo o ano que se aproxima. 

Bem, então por todos esses questionamentos do Miguel,  esse ano tive que cumprir a promessa feita. Casa linda, do jeito que a gente queria, faltava apenas uma árvore de Natal novinha, grande e bonita. Essa semana, comprei a árvore e enfeites e Miguel não se continha de tanta alegria e queria montar a árvore assim que ela chegou. Ontem, vencida pelo cansaço, começamos a montar nossa árvore de 2,10m e Miguel estava empolgadíssimo, ajudou muito, escolhia o lugar dos enfeites. Minha mãe, Hugo, eu e Miguel às voltas com a árvore de Natal. Durante três horas ficamos alí reunidos e me deu uma vontade enorme de chamar minha irmã, minhas afilhadas e meu cunhado pra virem também. Todos envolvidos na mesma tarefa, rindo e falando besteira. O espírito da paz presente, quase palpável. Do jeito que deve ser. Do jeito que deveria ser em todo lar. 

A árvore ficou linda e mais lindo ainda era a felicidade do meu filho. Quem tem criança em casa sabe que o Natal é ainda mais precioso por isso. Os valores do Natal, o amor de Cristo e por Cristo, a união familiar, a fé na vida, enfim, são as coisas mais importantes e que devem ser passadas de geração pra geração. A ansiedade do Miguel pra acender a árvore e ver suas luzes piscando foi emocionante. Promessa cumprida, árvore de Natal pronta, casa na expectativa do Papai Noel, Natal chegando e o amor se renovando. Olhando pro meu filho tão feliz arrumando pela primeira vez a sua árvore de Natal, voltei a ser criança e lembrei de mim, cheia de felicidade e com a mesma ansiedade pra arrumar a árvore de Natal do apartamento pequeno de Olaria. As luzes da árvore de Natal acesas e meu coração piscando amor. 

Feliz Natal pra todos!!

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Livros



Esse final de semana minha amiga Ana Portela me fez um desafio no facebook no qual a pessoa deve relacionar os 15 livros que marcaram sua vida de alguma forma. Sem pensar muito, eu devia relacionar os livros citando o título e o autor. E então comecei a lembrar deles, um a um. E como foi delicioso fazer isso porque lembrar de livros que foram importantes pra você, é como escutar uma música: você é remetido a uma situação, a um momento da sua vida, as lembranças vêm tão fortes que é quase como se pudéssemos viver de novo o passado. 

A leitura chegou pra mim muito cedo. Eu amo ler desde muito nova. E acho que nesse ponto, não ser hiperativa como minha irmã, me ajudou. Ler era uma "atividade" excelente pra mim e que combinava perfeitamente com meu jeito de ser. Eu podia ficar quieta, na minha cama ou sentada confortavelmente em uma cadeira e passar horas vivendo outras vidas e outras situações, conhecendo outros lugares, sem sair do meu lugar, sem me mexer. Era perfeito pra mim. Assim, enquanto meus amigos da escola reclamavam e muito de ter que ler os livros recomendados pela professora, eu agradecia. É claro que alguns títulos não eram tão legais, mas a verdade é que através da escola eu conheci o prazer de ler e, depois, de escolher outros livros, de acordo com meus interesses e crescente gosto literário.

Então, vamos aos livros dos quais me lembro assim, de supetão. 

O primeiro livro do qual não me esqueço foi "A Casa da Madrinha", de Lygia Nunes. Não é o nome completo da autora mas não estou me lembrando dele todo... Ganhei o livro da minha madrinha e lembro que era a história de um menino pobre que tinha que trabalhar pra ajudar nas despesas da casa e que encontrava na professora da escola - que usava métodos nem um pouco tradicionais de ensino - uma caminho pra ser mais feliz. 

Livro 2: O Menino do Dedo Verde, de Maurice Druon. Devo ter lido com uns 12 anos e me tocou profundamente. Acho que foi a primeira vez que entendi o amor como um caminho pras coisas erradas do mundo. Lembro de ter chorado muito no final da história. Engraçado que mês passado ao levar minha afilhada na "Esteira Cultural" da escola, havia vários livros pra cada família escolher pra ler e deixar depois em um lugar público pra que outra pessoa pudesse ler e bati os olhos nesse mesmo livro. Não pensei duas vezes e trouxe o livro pra casa. Li novamente pra tentar entender o que me tocou tanto. É um livro muito maior que uma menina de 12 anos poderia entender.

Aliás, existe isso: um livro pode ser considerado chato em determinada fase da vida. Entretanto, quando o lemos novamente mais tarde, podemos mudar totalmente de ideia a respeito daquela leitura porque muitas vezes um livro cai nas nossas mãos sem que estejamos prontos pra ele. É preciso estar aberto pra certos livros e em um momento de vida que lhe permita o entendimento. Além disso, muitas vezes o que nos marca em um livro quando o lemos com 15 anos é totalmente diferente do que nos marcará ao lê-lo com 25 ou 40. Nossa perspectiva vai mudando e esse é outro encanto que amo na leitura.

Livro 3: O Escaravelho do Diabo, de Lucia Machado de Almeida. Quem nasceu nos anos 70, com certeza leu pelo menos um livro dessa coleção que acho que se chamava "Vagalume". Nossa, eu li muitos livros dessa coleção!! Eu ADORAVA. Mas desse eu não me esqueço porque foi a primeira vez que li um livro de mistério. 

Livro 4: As Brumas de Avalon, Marion Zimmer Bradley. Tinha uns 13 anos e não foi recomendação da escola. Não esqueço dele porque foi o primeiro livro que pedi pra minha mãe comprar pra mim. Eram 4 volumes e li os quatro. Amei porque contava a história do rei Arthur sob a perspectiva feminina.

Livro 5: O Grande Mentecapto, Fernando Sabino. Achei divertidíssimo e muito inteligente. Lembro de ter parado pra pensar que tudo na vida tem uma consequência enquanto estava lendo esse livro. 

Bom, aí eu comecei a conhecer os clássicos da literatura brasileira. Minha mãe trabalhava no Banco Central e lá havia uma biblioteca maravilhosa! Eu virei rato de biblioteca. Que paraíso era aquele onde eu poderia pegar os livros que quisesse pra ler sem pagar? Meu Deus! Foi a descoberta do ano pra mim! Minha primeira tentativa foi logo com Machado de Assis e preciso dizer que foi um fracasso! Machado não é pra qualquer um, principalmente se esse "qualquer um" for novo. Eu tinha uns 15 anos e ainda não estava preparada pra tanto detalhe. Mas não me rendi. Voltei ao Machado depois de uns anos. 

Livro 6: O Tempo e o Vento, Erico Veríssimo. Sete volumes lidos vorazmente tamanha minha paixão pelo Capitão Rodrigo. 

Livro 7: A  Moreninha, Joaquim Manuel de Macedo. Estava numa fase romântica e o livro veio bem a calhar. 

Livro 8: Vidas Secas, Graciliano Ramos. Foi uma chamada de despertar pra mim. Lembro que ainda estava na fase romântica quando ela foi interrompida por Vidas Secas. Sim, porque esse foi um dos livros que li por conta da escola. E eu não estava muito a fim. Mas o livro me encantou. 

Livro 9: O Cortiço, Aluísio Azevedo. Gente, que livro divertido!! Eu gargalhava. 

Livro 10: Olhai os Lírios do Campo, Érico Veríssimo. Voltei pro romance em grande estilo.

Livro 11: Violetas na Janela, psicografado por Vera Lucia de Carvalho. Foi meu primeiro livro espírita e foi dividor de águas pra mim. Por causa desse livro, li Nosso Lar, logo depois. 

Ai, meu Deus... Já está acabando e ainda tem tanto livro pra relacionar... Deixa eu colocar logo um do mestre Sidney Sheldon!!! Poderia dizer todos porque sou apaixonada por seus livros, mas vou escolher um.

Livro 12: A Ira dos Anjos, Sidney Sheldon.

Livro 13: Helena, Machado de Assis.

Livro 14: Senhora, José de Alencar.

E não posso deixar de citar porque amo MUITO:

Livro 15: Harry Potter, J. K. Rolings Todos os livros, do primeiro ao sétimo. Já li duas vezes e lerei mais algumas, de certo. 

Aaaahhhhh Já acabaram os 15... Como assim?? Ainda tenho tantos pra livros maravilhosos pra relacionar... Nossa, faltou "O Caçador de Pipas", Khaled Rosseini. Livro que me fez chorar baldes. Meu Deus, faltou "O Velho e o Mar", Hemingway. Esse deveria ter colocado entre os 15, sem dúvida. Que livro maravilhoso... O Nome da Rosa, Umberto Eco, também deveria estar entre os 15, além de Razão e Sensibilidade, Jane Austin; A Revolução dos Bichos, George Orwell; Perdas e Ganhos, Lya Luft; Ensaio sobre a Cegueira, José Saramago; Crônica de uma Namorada, Zélia Gattai; Capitães de Areia, Jorge Amado; O Diário de um Mago, Paulo Coelho; A Distância entre Nós, Thrity Umrigar; e por aí vai... 

Querida Ana Portela, desafio cumprido. Mas, olha, poderia citar tantos, mas tantos livros... Esse foi um desafio maravilhoso. E só me deu mais vontade de ter muito tempo pra ler todos os livros que ainda quero ler!! 

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Gordinha



Nunca fui gordona mas também nunca fui magrela. Sempre gostei de comer e amo doces, mas, por ter tendência pra engordar, tenho que tomar cuidado. Quando criança eu era muito desligada dessas coisas de tipo físico considerado ideal, peso, dieta. Só que convivia com minha irmã que SEMPRE foi ligadérrima nessas coisas e eu não conheço ninguém com cuidado maior com o peso que ela. Por isso, acabei vendo que tinha que tomar cuidado pra não engordar.

Sempre fiz atividade física e isso devo também à minha irmã. Foi dela a ideia de entrarmos no ballet e desde os 6 anos nunca mais deixei de ter uma atividade física, graças a Deus. O ballet também é uma coisa muito louca porque a criança é meio que adestrada, logo que começa a ter entendimento de seu tipo físico, que nem sempre querer é poder. Quero dizer que embora eu amasse dançar, nunca tive o tipo físico de bailarina e vivia em briga com a balança não pra ser magra, mas pra ser muito magra e me enquadrar no padrão exigido no meio. Era chato. Imagine que hoje tenho 57 quilos e quando fazia ballet pesava 52 quilos e ainda era considerada gorda. É muito ruim. Só pararam de encher o meu saco quando eu pesei 49 quilos e, vou lhe dizer, eu estava um horror. Não gosto nem de pegar fotos dessa época porque eu parecia um pirulito. Minha cabeça ficou gigantesca porque era a única coisa que eu tinha. Além disso, pra piorar, uma cabeça gigantesca com dentes gigantescos. Enfim, a visão do inferno.

Desde então, tomo cuidado com o que como. Não sou de grandes quantidades e com uma irmã nutricionista fica mais fácil tirar as dúvidas e se aconselhar. Aprendi que comer várias vezes ao dia e em pequenas quantidades é melhor que ficar horas sem comer nada e bater aquele pratão de estivador. Como toda hora, é verdade. Sinto fome toda hora. Mas como pouco. Não abro mão do meu chocolate todos os dias, eu amo. Acho que se desistisse desse prazer seria mais magra, mas existem coisas na vida das quais não estou disposta a abrir mão e meu sagrado chocolate é uma delas. Hoje mantenho meu peso sem muito esforço e acredito que a ginástica de todos os dias, bem cedo, é a minha fórmula. 

Detesto quando engordo, não me sinto bem, as roupas não ficam bem, enfim, não me gosto mais gordinha. Achei a paz com 57, 58 quilos e não quero pesar mais. Se eu gostaria de pesar menos? SIM!!!! Gostaria de pesar os 53 quilos da época do ballet, mas às custas de tanto sacrifício que me dá muita preguiça e me contento com esse peso mesmo. Malhar, pra mim, já é uma questão de saúde, nem passa pela minha cabeça ficar gostosona porque não tenho mais idade pra pensar nisso, né? Se o corpinho se mantiver como está e eu puder atrasar a ação da gravidade, já me dou por satisfeita. 

Fazendo todas essas colocações, deve-se imaginar que ser chamada de "gordinha" é péssimo pra mim. Está aí um adjetivo com o qual não simpatizo. Seja de que jeito for, né? Sim, porque as pessoas tem o dom de inventar modos alternativos de lhe chamar de gorda sem usar a palavra em si. Dizem que você está "mais fortinha", "mais cheinha", "fofinha", "mais bochechuda" e até, em último caso, dizem que você está "diferente". Mas como a vida tem suas surpresas e como diria Lulu Santos "tudo muda o tempo todo no mundo", ontem eu estava deitada na minha cama e lá vem meu filho delicadinho que só:

- Mamãe!! Quero ficar grudadinho com você!! Vamos ficar abraçadinhos? 

Ai, que amor... Mãe devidamente derretida e achando o filho a coisa mais gostosa desse mundo, abri o maior sorriso e disse ao Miguel que isso certamente é a melhor coisa da vida. Aí, Miguel veio e praticamente se derrubou em cima de mim e me apertou até tirar meu ar. Abriu aquela boquinha delícia da minha vida e falou:

- Deixa eu te abraçar, gostosinha! Vou te encher de beijos, minha gordinha lindaaaaaaa!!!!! 

G O R D I N H A. Sim, foi exatamente essa a palavra que meu filho amado usou. Em meio a tantos beijos, ele diz que sou sua gordinha linda. E quer saber? Eu nem liguei! Foi um "gordinha" tão gostoso, tão feliz, que não me importei. Pra ele, posso ser gordinha. Serei sempre a "gordinha do Miguel". E posso afirmar que estou gostando. De ninguém eu gostaria de ouvir esse adjetivo, mas ele... Ah... "Gordinha" tem sabor de "magrinha". Na boca do meu filho, "gordinha" tem sabor de "bonitinha". E se o "gordinha" continuar vindo acompanhado de tantos beijos e de tanto amor, eu estou querendo é mais!!! E viva as gordinhas bem amadas e doces como chocolate!!

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Peteleco

Jô e eu (no meio)
5 anos

Jô, em pé de saia lilás e eu abaixada
6 anos

8 anos (depois de um surto no qual pelei meu cabelo)

Eu abaixada com as mãos no colo da Jô - 16 anos


Toda criança tem um amigo inseparável. Pode ser que o amigo inseparável varie de tempos em tempos, mas há sempre um. No meu caso, eu tive uma amiga de infância que me acompanhou do jardim até a universidade. Estudávamos na mesma escola, na mesma sala de aula, fazíamos ballet juntas e inglês também (até ela desistir do inglês). Enfim, onde eu estava, provavelmente a Jô estaria e vice-versa. 

Eu sempre tive amigos que eram muito diferentes de mim. Lógico, com afinidades mas com jeito muito diferente. Não sei se inconscientemete eu já sabia que aprendo mais com o diferente que com o semelhante. Mas eu e a Jô éramos unha e carne e a gente ria muito uma da outra e uma com a outra. Eu era boa em umas matérias e ela em outras e a gente se ajudava. A mãe dela nos dava carona em seu fusca pra cima e pra baixo porque não trabalhava. Minha mãe estava sempre na rua porque trabalhava fora. Ela me sacaneava muito - principalmente quando se juntava com a minha irmã - por causa do meu jeito que ela dizia ser "intelectual". Eu gostava de passar horas quieta na minha cama lendo todo tipo de livro enquanto ela sempre foi mais agitada. Enfim, entrava ano e saía ano, eu e Jô seguíamos juntas. 

Nós devíamos ter uns 11 anos e não me lembro o motivo, mas estávamos sentadas juntas na sala de aula esperando o professor que estava atrasado. Como a gente sempre tinha assunto de sobra, estávamos sempre conversando. Ainda mais sem professor em sala. Aí, uma inspetora nova na escola, não consigo me lembrar do nome da mulher, entrou em sala de aula pedindo a todos silêncio. Ela ficou andando de um lado pro outro, feito cão de guarda, tomando conta dos alunos enquanto a professora não chegava. Passaram-se 5, 10 minutos e , lógico, o silêncio foi se tornando cada vez mais difícil de ser mantido. Como fazer 30 alunos ficarem calados, sentados em suas carteiras, por mais de 10 minutos sem dar-lhes nenhuma atividade? Então, não é difícil de deduzir que, depois de 10 minutos feito estátuas, Jô e eu começamos a conversar baixinho. 

Estávamos mesmo conversando baixinho, mas como estávamos sentadas na primeira  fileira, a diaba nos viu e veio em nossa direção. Sem mais nem menos, sem dó e nem piedade, nada falou. Apenas me deu um peteleco na cabeça e outro na cabeça da Jô. 

- Eu não disse pra ficarem calados?, rosnou a supervisora. 

Eu olhei incrédula pra ela. A Jõ olhava pra minha cara com ódio saindo pelo olho. Pensei até que ela fosse falar alguma coisa. Engulimos nosso orgulho e não falamos nada. A sala de aula inteira calou-se, obviamente com medo de levar petelecos na frente de todo mundo. Fiquei com a dor do peteleco e a vergonha o dia inteiro. E também uma vontade dentro do peito de ter feito alguma coisa, de ter falado alguma coisa. 

Os tempos, definitivamente, eram outros. Imagina uma cena dessas nos dias de hoje? Não, nem dá pra imaginar. Parece piada.

Quando minha mãe chegou em casa à noite, contei pra ela o que tinha acontecido. Eu era criança mas sabia, mesmo que ninguém tivesse me dito, que aquela supervisora doida não poderia ter feito aquilo comigo. Nem com a Jô. Minha mãe ficou raivosa e hoje imagino o que ela não sentiu quando contei do peteleco. A raiva era maior porque, por algum motivo importante do trabalho, ela não poderia ir na escola no dia seguinte pra falar do ocorrido na coordenação. Ela teria que esperar mais outro dia até resolver a questão. Em compensação, a Jô me falou que a mãe dela iria até a escola no dia seguinte. 

A mãe da Jô, Dona Marlene, ficava sempre na porta da escola. Nesse dia ela não entrou junto com a Jô. Eu estava ansiosa, querendo ver a mãe da Jô entrando na escola e se dirigindo à secretaria pra reclamar. Afinal de contas, meu rosto ficava vermelho só de lembrar da dor do peteleco. Dor na minha cabeça e de humilhação. Chegou a hora de formarmos para irmos pra sala de aula com o professor. Era nessa hora também que todos os supervisores ficavam pela quadra pra observar o grande número de alunos. E foi estrategicamente nessa hora que Dona Marlene entrou elegantemente portão adentro e se aproximou da quadra. Não pudemos ouvir, mas vimos ela falar com a coordenadora. Ela estava pedindo que chamassem a tal da supervisora porque precisava falar com ela. Era urgente. 

Quando a supervisora se aproximou dela, ficando frente a frente, disse:

- Pois não, no que posso ajudá-la?

A mãe da Jô, não abriu a boca. Levantou a mão e pimba! Tacou um peteleco na cabeça da supervisora na frente de toda a minha turma! A supervisora se fez de fragilzinha e falou:

- Ai, ai!! Meu Deus, o que é isso????

Dona Marlene, explicou:

- O que é isso? Isso é um peteleco! O mesmo que você deu na cabeça da minha filha ontem! Isso é pra você aprender a não dar peteleco na cabeça do filho dos outros porque se você fizer isso novamente eu vou voltar aqui na escola. Entendeu?

A mãe da Jô virou as costas pra supervisora que estava com a mão na testa, local onde foi dado o peteleco, e saiu pela escola soberana, cabeça erguida, como se estivesse mais leve, com a sensação do dever cumprido. Eu? Estava exultante de felicidade. Havia sido vingada. Mal via a hora de chegar em casa e telefonar pro trabalho da minha mãe pra contar o que havia acontecido. Definitivamente, minha mãe não precisaria chegar atrasada no trabalho no dia seguinte pra ir até a escola reclamar. Dona Marlene já tinha feito o que tinha que fazer. 

Hoje, todas as vezes que sinto vontade de dar um peteleco em alguém, querendo vingar uma injustiça ou covardia, lembro-me daquele dia. Lembro da cara de idiota da supervisora na hora que recebeu o peteleco inesperado. Lembro do dia em que fui vingada pela mãe da Jô. E fico rindo sozinha. 

Realmente, eram outros tempos...


quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Manias



Fico me perguntando, às vezes, se eu já tinha as manias que tenho hoje desde sempre, se estou tomando consciência delas agora que me conheço melhor ou se são coisas da velhice mesmo. Na verdade, eu já tenho algumas manias desde nova, sim. E não sei se minhas manias incomodam os outros, mas devem incomodar porque as manias dos outros incomodam a gente né? 

Bom, eu tenho mania de usar as coisas até o final. Final mesmo. Não posso jogar fora o tubo de pasta de dentes se ainda tiver um pingo lá dentro. Não posso perder minha caneta se ela ainda tiver carga porque terei um ataque psicótico caso isso ocorra. Tenho que ver minha caneta acabar pra depois jogá-la no lixo. Eu mesma tenho que jogar a caneta no lixo. Não pode ser outra pessoa. Entendam, não tenho apego à caneta. Se é amarela, desenhada, presente de alguém. Eu só preciso usá-la até o fim. Só. 

Seguindo a mesma linha, tem o sabonete. Eu colo um sabonete no outro quando está acabando. Coisa de pobre, diriam alguns. Pra mim, é coisa de louco que precisa ver o sabonete que está terminando ir sumindo coladinho no sabonete novo. E pra que eu possa ver isso acontecer, colo sempre o sabonete que finda, em outro de cor diferente. 

Eu me peso todos os dias, pela manhã. Sim, todos os dias, logo depois de escovar meus dentes, em jejum. Só quebro essa rotina se estiver em viagem. 

Eu tenho mania de arrumar meu armário. Uma vez por mês eu arrumo as gavetas, tiro as roupas dos cabides, organizo separando saias, vestidos longos, vestidos mais curtos. E até aí tudo bem, porque como arrumo sempre, nunca está tão bagunçado. Acontece que o pior é que eu tenho que experimentar minhas roupas quando estou arrumando. Experimento antes de guardá-las. É uma loucura. Eu fico me perguntando porque faço isso. Poderiam dizer que eu não tenho o que fazer, que é falta de um tanque de roupa suja pra lavar. Mas o que não me falta é coisa pra fazer. Mas eu sempre arranjo um tempo pro meu armário. Sempre. 

Se tem uma coisa que me enerva é quando estou assistindo algum filme com o Namorado e ele dorme. Como é que pode dormir em cinema, gente? Eu não posso dormir. Porque vou ter a sensação estranha de que perdi alguma coisa, sabe? Então por mais que eu esteja detestando o filme, eu tenho que vê-lo até o fim. NUNCA saí na metade de nenhum filme. E NUNCA abandonei um DVD. Eu assisto a bosta de filme até o final, por mais patético e cansativo que ele possa ser. Tenho mania de começo, meio e fim. Eu termino o que começo. E isso se dá com livros também. Se eu começar a ler um livro, mesmo que o ache sacal, chato, enfadonho, não me permito uma carta de alforria, fico me torturando até a última página. Sinto-me meio "Monica Geller" (do seriado Friends), como se tivesse que vencer aquele livro chato ou desinteressante, como se tivesse que provar que ninguém ou nada vai me derrotar ou fazer desistir. O pobre do Hugo fica escutando coisas do tipo: "Que autor mais idiota!" ou "que história mais imbecil" ou "que livro chato"... E ele me pergunta:

- "Paula, pelo amor de Deus, vou ter que ficar escutando você reclamar desse livro até quando?? Larga isso pra lá, escolhe outro pra ler!!"

Mas eu não largo. Vou até o fim. 

Eu travo uma competição comigo mesma. Se na minha agenda do dia estiverem relacionadas 20 tarefas, eu só sossego se tiver conseguido fazer as 20. Nada me tira do foco. É quase uma obsessão. E pra isso eu perturbo as pessoas que estão ao meu redor. Mas se tem uma coisa que me dá prazer, é colocar as letrinhas "OK" no meu ipad ao lado das tarefas realizadas.

Vejo as manias das pessoas ao meu redor. E isso me consola. Aqui no trabalho tem uma que não pode ver clipe no chão. Ela precisa pegar. A outra tem que trocar a camisola todo dia. Tem que ser uma diferente pra cada noite da semana. Tem um professor que toda vez que viaja tem que comprar cueca nova. O Namorado não gosta que eu deixe o volume do som do carro em número ímpar. Ele sempre muda pra um número par. Meu tio diz que o rolo de papel higiênico tem que ficar de modo que a parte solta passe por cima do rolo.  E por aí vai. Assim, podemos concluir que "de perto ninguém é normal".  

E aí, quais são as suas manias? Ou seriam loucuras? 




sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Macuco Safari





Desde que saí do Rio de Janeiro pra visitar Foz, tinha certeza de duas coisas: conheceria as Cataratas e faria o Macuco Safari. O Namorado tentou tirar essa ideia do safari da minha cabeça, disse que poderia ser perigoso e até lembrou do acidente ocorrido há uns anos quando dois barquinhos se chocaram e uma mulher morreu. E eu nem aí. Decidida e cheia de coragem que sou, não deixaria passar a oportunidade. 

Dois dias antes de nossa chegada, o Macuco Safari estava fechado por conta do volume das águas. Houve muita chuva por lá nas últimas duas semanas e não só o safari estava fechado como também algumas passarelas do parque que encontravam-se em baixo de água. Só que o safari estava aberto. E lá fomos nós. Miguel era o mais desavisado, coitadinho. Pensava que estava indo em alguma atração da Disney. Vestimos nossas capas de chuva e fomos lá. Eu e Miguel sorridentes e Hugo mais cauteloso, como se adivinhando o que viria pela frente. 

O barco começa andando em um ritmo tranquilo, até gostoso eu diria. Só que depois de determinado momento, com as águas bem revoltas, a velocidade que o diacho do barquinho ganha é assustadora. A frente do barco chega a levantar e a impressão que se tem é que vamos levantar voo pra depois bater nas pedras com força. Isso se repete várias vezes. Não preciso nem dizer que eu estava apavorada. Hugo, que era quem não queria fazer o passeio, estava com a cara tão tranquila como se estivesse deitado no sofá de casa. Eu estava com o estômago pelo avesso e Miguel estava apavorado. Quando o homem que conduzia o barco parava no meio das cataratas, ele deixava o barquinho "meio à deriva" por alguns segundos e depois acelerava novamente. Eu queria sumir. Parecia que estava em um filme de terror.

Meu filho de 5 anos começou a falar bem alto, sem parar, olhando pra mim com uma cara de indignação total:

- A culpa é sua! Você é quem queria entrar nesse barco! Você é uma mãe louca!! Você é doida! Sua mãe doida!! Me colocou nesse barco!!

Nessa hora, eu que já estava nervosa e cheia de medo, tive um ataque de riso. Eu ria tanto que chorava de tanto rir. O barco inteiro deveria estar com pena do menino e me achando uma megera sem coração. O Hugo tentava acalmar o Miguel e meu ataque de riso não estava ajudando em nada porque Miguel começou a pensar que eu estava rindo dele. Só que eu estava rindo de pavor. O passeio estava durando uma eternidade e eu não via a hora de pisar em terra firme. No final, Miguel já estava mais calmo, Hugo estava com aquela cara de "eu te disse" e eu estava com cara de desespero com a maquiagem toda borrada porque nem o lápis de olho mais poderoso à prova de água resistiu à força daquelas quedas e aguaceiro sem fim. Saí de lá com medo e parecendo um panda. 

Miguel, depois que tudo acabou, seguiu à risca o ditado que diz: "depois que passa, a gente ri" e todo felizinho, esquecendo-se que 5 minutos antes tinha me chamado de louca, disse que queria ir de novo. E aí foi minha vez de gritar: 

- Pois você que vá com seu pai porque nesse barquinho ninguém me enfia nunca mais!! Nunca mais mesmo!!

E tenho dito.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Foz do Iguaçu







Incrível que eu goste tanto de viajar e nunca tenha nem pensado em conhecer Foz do Iguaçu. Só que de uns 2 anos pra cá eu já vinha ficando sem graça quando meus amigos de fora perguntavam sobre Foz e eu não tinha referência pra dar por nunca ter visitado morando tão perto. Sempre que converso com algum estrangeiro, invariavelmente Foz do Iguaçu e Rio de Janeiro são citados como os "locais desejo" dentro do Brasil. E eu sem conhecer essa maravilha da natureza. Por isso, comecei a achar surreal que eu não tivesse até hoje tido a honra de visitar Foz. Eu já conhecia Niagara Falls no Canadá e não conhecia Foz. Como pode? 

Esse ano, eu e Hugo tínhamos planejado uma viagem pequena só pra nós, já que tiramos férias longas com o Miguel em abril. E escolhemos Foz do Iguaçu pra passar 4 dias. Só que Miguel disse que queria ir junto e cedemos. Miguel ficou animado pra conhecer as cataratas e foi, de fato, um passeio muito legal pra ele também. O Parque das Aves é imperdível pra quem vai com crianças porque tem um conceito um pouco diferente dos demais parques. Em um espaço grande, mas cercado, as aves convivem com as pessoas que as visitam. O mesmo acontece com as borboletas. Miguel adorou. Há também o recém inaugurado Vale dos Dinossauros. Miguel ficou louco. É bom deixar claro que se eu tivesse ido só com o Hugo não teria pago o ingresso (40 reais por pessoa) pra ver os dinossauros. Mas com criança vale a pena. Os dinossauros fazem sons e mexem e Miguel ficou bem feliz. O Vale dos Dinossauros fica ao lado do Museu de Cera (desses que tem em qualquer lugar do mundo).






Visitamos também Itaipu e o Templo Budista. Itaipu foi um pouco cansativo pro Miguel mas meu filho é um amor e aguenta bem qualquer coisa. O Templo Budista é um lugar lindo. Uma atmosfera de paz tão grande que difícil é querer sair de lá. É claro que visitamos o parque das cataratas do lado brasileiro e do lado argentino. No primeiro dia fomos no lado brasileiro. Fizemos logo o Macuco Safari - mas esse é tema pra outro post! E fizemos a trilha do parque. É realmente muito bonito. Mas confesso que ao final do dia, até meio sem graça, continuei achando Niagara Falls mais interessante, mais bonito até. Fizemos o passeio de helicóptero e tivemos uma vista espetacular. Apesar de ser um passeio curto (o voo deve durar apenas uns 15 minutos), Miguel estava muito excitado pra andar de helicóptero e valeu a pena porque o visual é demais.











Deixamos o parque das cataratas argentinas por último e acho que fizemos muito bem. Se até então eu tinha impressão que as cataratas do Canadá ainda eram mais bonitas, quando se está do lado argentino vemos que Niagara Falls não chega nem perto do espetáculo que são as nossas cataratas! Eu fiquei maravilhada mesmo. Que coisa mais linda, especial. É um show tão lindo da natureza, é a presença de Deus ali, na força daquelas águas e rochas. Inesquecível pra mim. Um lugar tão pertinho e tão maravilhoso.










Pra quem vai com criança, é bom escolher um hotel com estrutura. Nós preferimos ficar do lado argentino e nosso hotel tinha bons restaurantes, um parquinho e atividades pro Miguel. Chegávamos e ainda íamos a piscina com ele. A 100 metros do hotel ficava o Free Shopping argentino e bons restaurantes na redondeza. A 5 minutos de carro, tem uma feirinha que vende alfajor e doce de leite (sou apaixonada por doce de leite argentino) e muitas outras coisinhas. Eu levei o carrinho pro Miguel e foi bom. No parque do lado brasileiro tive um pouco de trabalho porque há muitas escadas nas trilhas e foi chato. Aí resolvi deixar o carrinho no hotel no dia do parque argentino e me ferrei, quer dizer, o Miguel se ferrou porque há poucas escadas nas trilhas e ele poderia ter usado o carrinho. De qualquer forma, se fosse alta temporada o uso do carrinho também seria complicado nas trilhas porque em muitos locais ela é estreita e ficaria difícil passar com o carrinho entre tanta gente. No final, deu tudo certo e mais uma vez Miguel foi um companheiro e tanto de viagem. Bem humorado, comia o que havia pra ser comido sem restrições e não reclamou de acordar cedo.  E agora posso dizer que conheço Foz do Iguaçú e que é mesmo um passeio lindo, com ou sem crianças. 

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

O Caderno

Quando a novela Carrossel passou, em 2012, Miguel até via alguns episódios porque sua prima, Rafaela, gostava muito. Só que Miguel era pequeno demais pra entender tudo, tinha apenas 3 anos. De uns tempos pra cá, como há todos os capítulos da novela na TV a cabo, Miguel adora assistir. Há quem não deixe os filhos assistir televisão, mas Miguel tem liberdade pra assistir o que gosta (desde que apropriado pra ele) e o resultado é que ele gosta de assistir a filmes de super heróis. Filmes de aventura tipo Harry Potter, Indiana Jones e De volta pro Futuro estão entre seus favoritos, gosta também de assistir umas comédias estilo besteirol junto com o pai (coisas de meninos mesmo!) e Carrossel. 

Através do meu filho, acabei vendo alguns episódios e gostei das questões levantadas pela novelinha. Trata de diferença racial, social, de como deve-se comportar não só na escola como na sociedade em geral e, como se não bastasse, a trilha sonora é maravilhosa. Por causa de Carrossel, Miguel canta "Ao Mestre com Carinho", "A Banda", "Aquarela", "João e Maria", "O Bom". Ontem, percebi Miguel cantarolando baixinho trechos de uma outra música de Chico Buarque (um compositor rei pra mim):

" ... a casa, a montanha, duas nuvens no céu... E um sol a sorrir no papel..."

Pensei: Caramba! Miguel está cantando outra música de Chico? Está cantando "O Caderno"? Perguntei a ele como conheceu a música, ele me respondeu que era do Carrossel e ainda me disse:

- Essa música me emociona, mãe. 

Ai, gente... Esse garoto me mata. 

Coloquei a música pra tocar e a gente escutou juntos do início ao fim. Depois, ele pediu que eu repetisse. 


Peguei Miguel no colo e saímos dançando e cantando, loucos e felizes pela casa e juntos repetíamos lindos e sorridentes:

" La la laia laia laia laia laia ...só peço a você um favor, se puder... Não me esqueça num canto qualquer." 

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Fome

Tínhamos passado uma manhã muito feliz, andando pela Quinta da Boa Vista em um dia lindo, tirando fotos e rindo. Foi um daqueles dias pra se guardar pra sempre na lembrança. Depois, resolvemos comer e enquanto esperávamos nossa mesa, sentamos em um banco do lado de fora do restaurante. E foi então que no meio da nossa conversa animada sobre nossa vida quase perfeita, demos de cara com a realidade. 

Um menino de mais ou menos uns 11 anos passou por nós segurando um saco de lixo nas costas. Ele estava descalço, com roupas imundas, pele suja. Não olhava pra ninguém e ninguém o olhava. Parecia invisível. Pior, parecia agir como se acreditasse que fosse mesmo invisível. Como se estivesse acostumado com o descaso alheio. As pessoas não querem ver além de sua vida "quase" perfeita. Ninguém quer dar de cara, ainda mais em um dia de domingo, com o retrato do abandono, da pobreza, da miséria e da fome em forma de menino. É melhor fingir que nada disso existe e que nosso domingo vai continuar tão lindo como o sol que brilha no magnífico céu azul. 

O menino chegou perto da lixeira. Ele enfiava a mão e retirava da lixeira o que sua mão pequena podia alcançar. Uma lata de refrigerante, ainda com o canudo dentro. Ele levava o canudo à boca e sorvia o resto do refrigerante, quente. Fez isso várias vezes, com copos de bebida de um fast food, com as outras latas. Pegou caixinhas de sanduíches, abria, comia o resto que havia nelas. Resto em copo de sorvete, cheirava e, achando que estava bom, comia. Eu não conseguia tirar meus olhos dele. Não conseguia parar de olhar. Eu e Hugo nos olhamos. Uma, duas, várias vezes. Incrédulos e em silêncio. Um silêncio pesado. E eu chorava copiosamente. Na fila do restaurante, pronta pra comer o que quisesse ou tivesse vontade, me senti tão pequena. 

Miguel que estava por perto, perguntou:

- Mãe, porque ele está mexendo no lixo? Ele está comendo comida do lixo?

Respondi que sim e, entre lágrimas, expliquei pro meu filho que existem pessoas que não tem o que comer, pessoas que comem o que os outros deixaram, os restos. E expliquei que existiam pessoas que sentiam fome e que nós devíamos ser muito gratos por termos sempre a mesa farta e por podermos, inclusive, escolher o que comer quando há gente no mundo que não tem nada.

- Onde está a mãe dele?, Miguel, mais uma vez, perguntou.

Como explicar isso pra uma criança de 5 anos que não sabe o que é passar necessidade? Como explicar que um menino de 11 anos está sozinho na rua, descalço, sujo, sem mãe, procurando o que comer pra um serzinho que tem tudo? Eu não tive palavras pra explicar. Disse ao Miguel que não sabia onde a mãe do menino estava e chorei mais um pouco porque isso é triste demais. Um irmão, como eu e você, cheio de fome, uma fome tão grande que faz com que ele não se incomode em comer os restos que recolhe - talvez ele ainda se sinta grato por eles. Um menino já acostumado a não se importar, em não ter mais pudor ou vergonha. 

Nós tínhamos um pacote de biscoito na bolsa. Hugo perguntou ao Miguel o que ele achava de darmos seu pacote de biscoito ao menino. Miguel disse que era uma boa ideia e Hugo foi até lá e esticou o braço com o pacote de biscoito na mão na direção do menino e falou: "Pra você." O menino, então, reuniu as coisas que catou, colocou em seu saco de lixo e o jogou nas costas. Pegou o pacote de biscoito maisena e foi embora. Sem nos dedicar um só olhar, desapareceu tão rápido quanto apareceu. 

Eu olhava ao redor e observava as outras pessoas que estavam por perto. Ninguém mais notou o menino. Ninguém mais parou sua animada conversa, ninguém olhou pra cena por mais de 1 segundo. E eu concluí que estamos nos endurecendo demais. Estamos achando o sofrimento alheio normal. Nos cercamos de proteção, nos blindamos. Só que não há como escapar da dor de um irmão porque ela é a nossa dor.

Fome, solidão, desamparo. Por um bom tempo, não conseguia parar de chorar. Pelo menino, por mim, por nós.